Ícone do site Educação & Tendências l Onde o presente da educação encontra o futuro

Antes do conteúdo, vem a conexão

Antes do conteúdo, vem a conexão

O prazer de ser reconhecido e visto por outro ser humano pode desencadear em nós a capacidade de seguir em frente e superar as dificuldades

Em um momento em que se fala tanto de desempenho, resultados e tecnologia e que as discussões sobre inteligência artificial, métodos e sistemas de ensino, metodologias inovadoras e competências do século XXI invadem nossos feeds de redes sociais e os grandes eventos para gestores e educadores, existe um elemento na educação que parece insubstituível: o afeto.

O afeto não pode ser visto como complemento ao processo de aprendizagem, mas sim como o elemento essencial. Quando nos sentimos seguros, acolhidos, pertencentes e reconhecidos em nossa singularidade, aprendemos melhor.

Pesquisadores do desenvolvimento, como o psicólogo soviético Lev Vygotsky, já apontavam que aprendemos nas relações. Os estudos de Vygotsky a este respeito são confirmados atualmente pela neurociência que nos ajuda a compreender o porquê. Quando o estudante se sente inseguro, ameaçado, exposto ou julgado, a amígdala cerebral reage para que haja autoproteção. A energia cerebral é direcionada para isso, limitando energia para a criatividade, curiosidade e capacidade de concentração.

Por outro lado, quando as condições emocionais e afetivas estão adequadas, o cérebro se mostra mais disponível para aprender e para se relacionar com os outros de forma saudável. É neste contexto que o papel do professor e a forma que constrói seu relacionamento com os estudantes ganham ainda mais relevância. Muitas vezes, sabemos que o que transforma a trajetória de um estudante é a forma com que seus professores se relacionam com ele. 

O educador Paulo Freire também defendia que antes do ensino vem a amorosidade, não se tratando de abrir mão do rigor acadêmico ou tornando-se permissivo com atitudes inadequadas. Entretanto, as relações de confiança e afeto permitem que os desafios sejam enfrentados com mais coragem e que os erros sejam compreendidos como importantes no processo. 

Bell Hooks, inspirada por Freire, defende que a aprendizagem acontece quando inserida em um contexto de relações autênticas e podemos citar também Henri Wallon, um dos pioneiros a mostrar que cognição e emoção não são separadas.

Quando nós, educadores, pensamos em nossas vidas acadêmicas, dificilmente lembramos de conteúdos, mas certamente de professores que nos marcaram por suas atitudes para conosco, palavras e afeto demonstrado ao longo do caminho.

O cinema tem retratado essa realidade há décadas e em filmes como “Ao Mestre com Carinho” (1967), “Escritores da Liberdade” (2007) e “Mentes Perigosas” (1995), por exemplo, podemos ver  que o  elemento transformador nunca é uma metodologia inovadora ou um recurso tecnológico, mas sim a dedicação do professor às relações humanas. Essas histórias nos lembram que para além do conteúdo a ser ensinado há uma relação e é nela que se desenvolve o terreno fértil para a aprendizagem.

Em tempos de inteligência artificial, precisamos lembrar que nenhuma plataforma, nenhuma metodologia ou recurso, é mais poderosa ou tem a capacidade de substituir a relação humana. O prazer de ser reconhecido e visto por outro ser humano pode desencadear em nós a capacidade de seguir em frente e superar as dificuldades.

Para nós, o exercício é bastante desafiador, mas gratificante, porque antes do conteúdo, vem a conexão e é desta que nasce a disposição para aprender. Que sejamos aqueles que encorajam os estudantes a acreditarem em si mesmos,  a fim de que eles sejam cidadãos que transformem a realidade com o mesmo afeto que receberam. 

Sair da versão mobile