Ícone do site Educação & Tendências l Onde o presente da educação encontra o futuro

Educação indígena e quilombola ganha chamada nacional de R$ 2,5 milhões

Educação indígena e quilombola ganha chamada nacional de R$ 2,5 milhões l Crédito: Acervo Instituto Mãe Lalu

Crédito: Acervo Instituto Mãe Lalu

Iniciativa busca fortalecer experiências educativas construídas pelas próprias comunidades e recebe inscrições até 28 de abril

No distrito de Santiago do Iguape, zona rural de Cachoeira, no Recôncavo da Bahia, aprender começa no ritmo das marés. Entre manguezais e os braços da Baía do Iguape, comunidades quilombolas vêm construindo uma nova forma de pensar a educação.

O projeto “Tecendo fios e caminhos nas escolas quilombolas”, desenvolvido pelo Instituto Mãe Lalu, atua na construção coletiva do Projeto Político Pedagógico (PPP) de escolas da rede municipal, colocando no centro os saberes das próprias comunidades. O PPP passa a refletir a vida no território: da pesca artesanal e da mariscagem às manifestações culturais como o samba de roda e a capoeira.

Para a diretora pedagógica do Instituto Mãe Lalu, Oracy Suzarte, o processo é também uma mudança de perspectiva sobre o papel da escola. “Consideramos um documento real, um guia que orienta as ações da escola, o ensino e a aprendizagem, dando centralidade a uma educação que reconheça e valorize histórias, saberes e práticas quilombolas”, destaca. 

A iniciativa enfrenta um desafio comum: a distância entre o currículo escolar e a realidade dos estudantes. Ao integrar território, cultura e educação, o projeto já contribui para transformar a forma como o ensino acontece nas comunidades.

A educação que nasce nos territórios indígenas e quilombolas está no centro de uma nova chamada nacional que pode ampliar iniciativas já em curso em diferentes regiões do país. O Fundo Casa Socioambiental abriu inscrições para a chamada Educação para o Bem Viver 2026 – Fortalecendo organizações indígenas e quilombolas pela equidade na educação, que vai destinar R$ 2,5 milhões para apoiar até 50 projetos comunitários em todo o Brasil.

A iniciativa parte de um entendimento cada vez mais reconhecido: para povos indígenas e comunidades quilombolas, educar vai muito além da sala de aula. Está ligado ao território, à memória, à oralidade e aos saberes ancestrais. Nesse contexto, a educação também é uma estratégia de fortalecimento cultural, proteção territorial e enfrentamento de desigualdades históricas.

Essa realidade já pode ser vista em experiências de projetos, que mostram como a educação, quando construída a partir do território, transforma não apenas o aprendizado, mas o futuro das comunidades.

Quando o livro nasce da aldeia

No Alto Xingu, a transformação começa nas páginas de um livro.

Durante anos, estudantes indígenas tiveram acesso a materiais didáticos que não dialogavam com sua realidade. Foi a partir dessa ausência que nasceu Ingu Helú: De olho aberto, uma cartilha bilíngue construída a partir do cotidiano das aldeias.

Com 45 verbetes ilustrados, o livro reúne elementos do universo xinguano, da roça ao peixe, da aldeia aos modos de vida, e está sendo distribuído em escolas de 11 aldeias dos povos Kuikuro, Kalapalo, Matipu e Nahukwá.

Para o educador indígena Mutuá Mehinaku, o impacto já é visível no cotidiano das salas de aula. “Hoje eu vejo as crianças desenhando, pintando, reconhecendo o peixe, a raia, tudo o que tem ali. Eles reconhecem facilmente. Isso ajuda na alfabetização, na leitura das imagens, até chegar ao ponto de escrever o nome na nossa língua”, conta.

Para lideranças locais, iniciativas como essa são também uma forma de garantir continuidade cultural. “Produzir material próprio garante autonomia pedagógica e fortalece a permanência dos jovens na cultura”, afirma Takumã Kuikuro, coordenador do projeto.

Uma chamada para ampliar o que já existe

As duas experiências mostram que soluções já estão em curso nos territórios e que o apoio direto às organizações locais pode ampliar esse impacto.

É justamente esse o objetivo da nova chamada: fortalecer iniciativas educativas conduzidas por organizações indígenas e quilombolas, reconhecendo seu protagonismo na construção de modelos próprios de educação.

Os projetos apoiados poderão atuar em diferentes frentes, como:

Podem participar associações indígenas e quilombolas sem fins lucrativos, além de coletivos comunitários e organizações de base vinculadas a escolas desses territórios.

Os recursos da chamada contam com apoio de parceiros como a Alliance for the Amazon and Beyond’s Funders e a Imaginable Futures.

Sair da versão mobile