A educação fluminense precisa de um pacto pela aprendizagem

A educação fluminense precisa de um pacto pela aprendizagem

O estado do Rio de Janeiro tem um dos piores desempenhos, medidos pelo IDEB

A rede estadual de educação do Rio de Janeiro enfrenta um paradoxo. Trata-se de um dos estados mais ricos do país, com grande concentração de universidades, centros de pesquisa, equipamentos culturais e oportunidades econômicas. 

Ainda assim, seus resultados educacionais permanecem aquém do esperado. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) do Ensino Médio, etapa de responsabilidade prioritária da rede estadual, situa-se há anos abaixo dos líderes nacionais e distante dos patamares necessários para garantir aos jovens uma formação compatível com os desafios do século XXI. 

Estudo recente do Movimento EducAçãoRio, em parceria com a Falconi Consultoria, mostra que o estado do Rio de Janeiro, apesar de contar com o maior gasto por aluno entre as 27 unidades federadas, tem um dos piores desempenhos, medidos pelo IDEB. Isso não significa que o estado deveria gastar menos em educação, afinal, educação de qualidade custa caro. Mas certamente significa que o Rio está gastando mal uma verba fundamental para mudar a realidade educacional do estado.

O problema não pode ser atribuído a uma única causa. Ele resulta da combinação de fatores históricos, sociais, institucionais e pedagógicos que se acumulam ao longo do tempo. O primeiro deles é a profunda desigualdade social presente no estado. Muitas escolas atendem estudantes expostos à pobreza, à violência urbana e à instabilidade familiar, fatores que afetam a frequência, a permanência e a aprendizagem. Embora a escola não seja capaz de resolver sozinha esses problemas, precisa estar preparada para mitigar seus efeitos.

Outro fator importante é a fragmentação das políticas educacionais. Nas últimas décadas, a rede fluminense passou por sucessivas mudanças de orientação, programas e prioridades. A ausência de uma estratégia consistente de longo prazo dificulta a consolidação de avanços. Redes que obtiveram melhorias expressivas, como as do Ceará, Pernambuco e Goiás, construíram políticas estáveis que atravessaram diferentes governos, mantendo foco na aprendizagem dos estudantes.

Na primeira década do século 21, a rede estadual do Rio começou a avançar em direção a um ensino médio em tempo integral, como predomina hoje nos países com bons sistemas educacionais e nas redes de alguns estados brasileiros como Pernambuco e Piauí. Nos últimos anos, infelizmente, reduziu-se o percentual de escolas no estado do Rio que oferecem essa modalidade e que poderiam, assim, incluir dentro da grade escolar uma recomposição de aprendizagens ou aulas com mais tempo que possam, de fato, ensinar os alunos a pensar. 

Além disso, boa parte dos professores tem uma carga horária de 18 horas, o que os obriga a dar aulas em diferentes locais, gastando boa parte de seu tempo de atividades extraclasse deslocando-se entre diferentes bairros ou até municípios. Muitos estados vêm mudando esta realidade, fazendo concursos públicos para 40 horas e alocando-os a uma única escola. A decisão recente de promover a migração de alguns mestres para 30 horas não muda radicalmente o cenário.

Também merece atenção a questão da gestão escolar. Embora existam excelentes diretores na rede, os processos de seleção, formação e acompanhamento das lideranças escolares ainda podem ser fortalecidos. A experiência internacional demonstra que a qualidade da gestão é um dos fatores mais importantes para o desempenho das escolas. Diretores preparados conseguem criar ambientes mais organizados, apoiar os professores e utilizar dados para orientar intervenções pedagógicas.

A valorização e o desenvolvimento profissional dos professores constituem outro ponto crítico. A formação continuada nem sempre está suficientemente conectada às necessidades concretas da sala de aula. Além disso, a carreira docente enfrenta dificuldades para atrair e reter jovens talentosos. Países e redes que conseguiram elevar a qualidade da educação investiram simultaneamente em seleção, formação, acompanhamento e valorização dos profissionais da educação.

A recuperação da rede estadual do Rio de Janeiro exige um conjunto articulado de medidas. Mas o mais importante seria adotar uma política educacional centrada em boas práticas, com um planejamento robusto e implementação consistente e monitoramento constante da aprendizagem e da permanência na escola. Sem estabelecer um pacto nesta direção, o estado não tem como avançar!