A escola não pode ser apenas o lugar onde se aprende sobre o passado ou se responde ao presente, mas precisa ser tornar também um espaço de investigação do porvir
Durante muito tempo, a escola foi organizada como uma instituição voltada para transmitir aquilo que a sociedade já sabia. Havia conteúdos, disciplinas, provas, respostas esperadas e uma certa promessa silenciosa: se o estudante dominasse o conhecimento acumulado, estaria preparado para o futuro. Esse modelo fez sentido em muitos momentos históricos. Mas hoje ele começa a mostrar seus limites.
Vivemos em uma época em que as informações estão disponíveis em segundos, as tecnologias mudam antes mesmo de serem plenamente compreendidas e profissões inteiras se transformam em poucos anos. A inteligência artificial generativa, a automação, os dados e as novas formas de trabalho não são mais temas distantes. Eles já atravessam a sala de aula, a vida dos estudantes, as famílias, as empresas e os territórios.
Nesse cenário, a escola não pode ser apenas o lugar onde se aprende sobre o passado ou se responde ao presente. Ela precisa se tornar também um espaço de investigação do porvir.
Pensar o futuro, aqui, não significa adivinhar o que vai acontecer. A escola não deve se transformar em uma máquina de previsão. O ponto é outro: formar estudantes capazes de observar sinais de mudança, compreender tendências, imaginar possibilidades, discutir consequências e tomar decisões mais responsáveis no presente.
Essa competência tem nome no campo dos estudos de futuros: literacia de futuros. Em linguagem simples, trata-se da capacidade de usar o futuro como uma ferramenta de pensamento. Não para escapar da realidade, mas para compreendê-la melhor. Quando um estudante aprende a imaginar diferentes futuros possíveis, ele começa a perceber que o mundo não está dado. Ele é construído por escolhas, disputas, valores, tecnologias, políticas públicas e decisões coletivas.
Mas há ainda uma dimensão pouco discutida: pensar o futuro também é uma questão de saúde mental. Muitos jovens não sofrem apenas pelo excesso de tarefas escolares, mas pela sensação de viverem em um mundo que muda rápido demais e oferece poucas garantias. A ansiedade diante do futuro, o medo de não encontrar lugar no mercado de trabalho, a pressão por desempenho e a comparação permanente nas redes digitais produzem uma experiência subjetiva marcada por insegurança. Quando a escola ignora essa angústia, ela deixa o estudante sozinho diante de perguntas que são, ao mesmo tempo, pessoais e sociais.
É nesse ponto que a proposta dos Laboratórios de Foresight ganha força. A palavra foresight pode ser entendida como capacidade de antecipação estratégica. No ambiente escolar, um Laboratório de Foresight seria um espaço, físico ou metodológico, onde estudantes e professores trabalham com problemas reais, investigam sinais de mudança e constroem cenários sobre temas relevantes para a sociedade.
Imagine uma turma estudando o futuro do trabalho em sua cidade. Os estudantes poderiam mapear mudanças nas empresas locais, entrevistar profissionais, observar o impacto da automação, analisar desigualdades de acesso à tecnologia e construir diferentes cenários: um futuro com mais inclusão, um futuro com maior precarização, um futuro com novas profissões, um futuro em que certas comunidades fiquem para trás. Depois, poderiam voltar ao presente e perguntar: que decisões precisariam ser tomadas hoje para aproximar a sociedade de um futuro mais desejável?
Esse movimento é chamado de backcasting. Em vez de partir apenas do presente para projetar o amanhã, parte-se de um futuro desejado para pensar os caminhos necessários até ele. É uma prática potente porque tira o estudante da posição de espectador. Ele deixa de perguntar apenas “o que vai acontecer?” e passa a perguntar “que futuro queremos construir?”.
Há nisso um efeito formativo importante. Quando o futuro aparece apenas como ameaça, ele paralisa. Quando aparece apenas como promessa tecnológica, ele ilude. Mas quando é tratado como campo de possibilidades, ele educa. A escola pode ajudar o estudante a transformar medo em pergunta, ansiedade em investigação e incerteza em capacidade de escolha. Isso não elimina o sofrimento, nem substitui políticas de cuidado em saúde mental, mas cria um ambiente pedagógico mais acolhedor para lidar com as inquietações do nosso tempo.
A proposta pode começar de forma simples na educação básica. Crianças e adolescentes podem aprender a reconhecer sinais de futuro em seu cotidiano: mudanças no bairro, no clima, no uso das tecnologias, nas relações de trabalho, na forma como as pessoas se comunicam. Aos poucos, passam a compreender que todo futuro é plural. Existem futuros possíveis, plausíveis, prováveis e preferíveis.
No ensino médio, essa aprendizagem pode ganhar mais densidade. Os estudantes podem trabalhar com problemas sociotécnicos, como mobilidade urbana, energia, saúde mental, inteligência artificial, sustentabilidade, desigualdade ou futuro das profissões. A escola, nesse caso, se aproxima da vida real. O currículo deixa de ser uma lista de conteúdos isolados e passa a dialogar com questões que os jovens reconhecem como importantes.
No ensino superior, os Laboratórios de Foresight podem se tornar espaços ainda mais estruturados, articulando pesquisa, extensão, inovação e parcerias com comunidades, empresas e instituições públicas. Nesse nível, os estudantes podem utilizar metodologias mais robustas de cenários, mapas de tendências, planejamento reverso e projetos aplicados.
Mas há um cuidado fundamental: pensar o futuro não pode ser apenas um exercício técnico. Não basta construir mapas bonitos, matrizes ou relatórios sofisticados. Todo futuro carrega valores. Todo cenário revela escolhas. Quando se imagina o futuro da educação, do trabalho, da tecnologia ou da saúde mental, é preciso perguntar: quem ganha? Quem perde? Quem foi ouvido? Quem ficou invisível? Que desigualdades podem ser ampliadas? Que formas de vida estamos protegendo ou descartando?
Por isso, a articulação com as Ciências Sociais é tão importante. Elas ajudam a lembrar que o futuro não é neutro. Ele é atravessado por relações de poder, cultura, território, classe social, gênero, raça, economia, política e sofrimento psíquico. Ensinar estudantes a pensar o futuro é também ensiná-los a discutir justiça, pertencimento, cuidado e responsabilidade democrática.
A escola do século XXI não precisa abandonar os conteúdos. Matemática, Ciências, História, Sociologia, Linguagens e Tecnologias continuam essenciais. O desafio é conectá-los a perguntas vivas. O que a ciência nos ajuda a compreender sobre os riscos climáticos? O que a sociologia nos ensina sobre desigualdade digital? O que a história revela sobre promessas tecnológicas que nem sempre beneficiaram todos da mesma forma? O que a linguagem nos permite narrar, disputar e imaginar?
Quando a educação assume o futuro como competência, ela amplia sua missão pública. Não forma apenas alunos capazes de repetir respostas, mas sujeitos capazes de formular perguntas melhores. Não prepara apenas para exames, mas para escolhas. Não oferece apenas adaptação ao mundo, mas condições para transformá-lo.
Talvez esse seja um dos maiores desafios educacionais do nosso tempo: ensinar que o futuro não chega pronto. Ele começa a ser desenhado quando uma escola convida seus estudantes a olhar para o mundo, perceber seus sinais, nomear seus medos, imaginar alternativas e compreender que cada escolha no presente abre ou fecha possibilidades.
Em tempos de inteligência artificial, incerteza e adoecimento emocional, pensar o porvir deixa de ser luxo intelectual. Torna-se uma competência básica de cidadania e também uma forma de cuidado.

Educador, pesquisador e escritor, construiu sua trajetória no encontro entre educação e saúde mental. Com experiência na docência e na gestão educacional, dedica-se a compreender aquilo que atravessa o cotidiano de quem educa, especialmente o mal-estar, o vínculo e as exigências emocionais do trabalho docente. Doutorando em Psicologia, Mestre em Intervenção Psicológica no Desenvolvimento e na Educação, com especializações em e Comportamento e em Bases Psicológicas da Aprendizagem. Membro do Instituto de Psicanálise Ferencziana, Instituto Glue, recebeu reconhecimentos como o Hall da Fama Junior Achievement do RS, o Prêmio Educador Transformador RS 2026, o Prêmio Ser Educação 2022 e o Certificado Vitatec com Projetos de Apoio Psicossocial na Educação.
