Durante anos, a discussão sobre tecnologia na escola, muitas vezes, foi conduzida em torno da mesma pergunta: quanto mais digital a educação se tornar, melhor ela será?
A Didacta 2026, maior feira de educação da Europa, realizada em Colônia, na Alemanh, mostrou que a discussão entrou em uma nova etapa. A inteligência artificial continua no centro das atenções. Mas o foco deixou de ser apenas a adoção de ferramentas.
A questão agora é mais sofisticada: como formar estudantes capazes de usar tecnologia com autonomia intelectual, responsabilidade e capacidade crítica?
Essa mudança de perspectiva é relevante
A IA já começou a transformar profundamente o modo como trabalhamos, pesquisamos, produzimos conhecimento e aprendemos. Ignorar isso seria desconectar a escola da realidade. Ao mesmo tempo, a presença crescente dessas ferramentas torna ainda mais importante desenvolver capacidades essencialmente humanas: interpretação, argumentação, criatividade, repertório cultural, discernimento ético e colaboração.
Paradoxalmente, quanto mais a tecnologia avança, mais evidente se torna a importância da formação humana. Um estudante hoje consegue acessar informações em segundos, produzir imagens, organizar dados e até gerar textos completos com apoio de inteligência artificial. Isso amplia possibilidades extraordinárias de aprendizagem. Mas também cria uma nova responsabilidade educacional.
A escola precisa ensinar os estudantes não apenas a utilizar ferramentas, mas a compreender limites, avaliar evidências, formular perguntas relevantes e transformar informação em conhecimento. Esse talvez seja um dos maiores desafios contemporâneos.
Nova responsabilidade da educação
O problema da educação há algum tempo já não é mais a falta de acesso à informação. O desafio agora está na capacidade de interpretar, relacionar e construir sentido.
Nesse contexto, a inteligência artificial não reduz a importância da escola nem do professor. Ao contrário, acrescenta uma nova responsabilidade à educação: formar estudantes capazes de usar essas ferramentas com autonomia, criticidade e responsabilidade.
O professor que sempre ocupou o lugar de transmissor de conteúdo, agora também assume ainda mais o papel de mediador, orientador e formador de pensamento crítico. Foi justamente essa percepção que apareceu com força na Didacta.
Mesmo em um evento marcado por tecnologia, as discussões mais relevantes envolveram temas como saúde mental, convivência, atenção, criatividade, bem-estar e aprendizagem ativa. A escola do futuro parece caminhar para um modelo mais integrado.
Tecnologia, ciência, sustentabilidade, formação emocional e competências humanas já não aparecem mais como temas isolados no ambiente educacional. Passam a funcionar como dimensões complementares de uma mesma formação. Isso ajuda a explicar por que metodologias baseadas em projetos, investigação, resolução de problemas e experimentação ganharam tanto espaço.
Quando as respostas automáticas estão cada vez mais disponíveis, formular boas perguntas se torna uma habilidade valiosa.
A inteligência artificial, provavelmente, ampliará a produtividade, democratizará ferramentas sofisticadas e acelerará processos de aprendizagem. Mas, nenhuma tecnologia substitui integralmente aquilo que acontece quando um estudante aprende a argumentar, conviver, investigar, criar conexões e compreender problemas reais.
A escola do futuro não será menos tecnológica. Ela provavelmente será ainda mais digital, mais conectada e mais orientada por dados, mas seu diferencial continuará sendo profundamente humano: formar pessoas capazes de pensar com autonomia em um mundo cada vez mais automatizado.
Gerente de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação do Biopark Educação.
