Há momentos em que uma sociedade é convocada a discutir mais do que um problema específico, mas a refletir sobre os princípios que orientarão seu futuro
A consulta pública promovida pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) para subsidiar a elaboração de diretrizes sobre o uso da Inteligência Artificial na Educação Básica representa um desses momentos. Embora seu objetivo imediato seja orientar políticas e práticas educacionais diante de uma transformação tecnológica sem precedentes, seu alcance é muito maior.
Ela nos convida a revisitar uma das indagações mais importantes que uma sociedade pode fazer a si mesma: afinal, para que educamos?
O debate que se abre é necessário e oportuno. Sistemas de inteligência artificial já produzem textos, imagens, códigos, análises e respostas em poucos segundos. Eles desafiam métodos de ensino, transformam formas de aprender e exigem novas competências de estudantes, professores e gestores.
É natural, portanto, que as discussões se concentrem em temas como formação docente, avaliação, ética, privacidade, inclusão e uso responsável dessas tecnologias.
Mas a contribuição mais importante dessa consulta pública pode não estar apenas nas diretrizes que dela resultarão. Está, sobretudo, na oportunidade de interromper, ainda que por um instante, o ritmo acelerado das respostas para recuperar o sentido das perguntas.
Missão da educação
Antes de decidirmos como utilizar esses recursos na escola, precisamos enfrentar uma questão anterior, mais profunda e mais permanente: qual continua sendo a missão da educação em um mundo onde respostas já podem ser produzidas por máquinas?
Ao longo da história, cada grande transformação tecnológica levou a educação a rever seus métodos. A imprensa ampliou o acesso ao conhecimento. O rádio e a televisão inauguraram novas formas de ensinar. A internet aproximou pessoas, encurtou distâncias e colocou um volume praticamente ilimitado de informações ao alcance de milhões de estudantes.
A atual revolução tecnológica representa mais um capítulo dessa trajetória. Sua velocidade, capacidade de síntese e potencial de personalização justificam plenamente o esforço de escolas, universidades e sistemas de ensino para compreender seus impactos e definir formas responsáveis de utilização.
Seria um erro minimizar esse desafio. Mas também seria um erro imaginar que ele se resume à tecnologia. Quando concentramos toda a atenção nas ferramentas, corremos o risco de deixar em segundo plano aquilo que lhes dá sentido: a finalidade da educação.
O ponto decisivo pode não ser se uma máquina será capaz de explicar um conteúdo, elaborar um plano de aula ou apoiar uma avaliação. Essas possibilidades continuarão a evoluir.
O verdadeiro desafio
O verdadeiro desafio é outro: se as máquinas passam a responder cada vez melhor, o que continua cabendo exclusivamente à educação humana?
A resposta começa pelo reconhecimento de que informação e educação nunca significaram exatamente a mesma coisa.
Muito antes das tecnologias digitais, educar jamais foi apenas transmitir conteúdos. Sempre foi formar pessoas capazes de compreender o mundo, atribuir sentido às experiências, conviver com a diferença, exercer discernimento e assumir responsabilidade por suas escolhas.
É justamente por isso que o avanço tecnológico não diminui a importância da educação. Ao contrário, torna ainda mais visível aquilo que sempre constituiu sua missão mais profunda.
As novas ferramentas ampliam extraordinariamente nossa capacidade de acessar informações, organizar conhecimentos e produzir respostas. Elas multiplicam os mapas disponíveis.
A singularidade da educação revela
Os mapas são indispensáveis. Revelam caminhos, alternativas e possibilidades. Mas, por mais completos e precisos que sejam, não escolhem o percurso que devemos seguir. Não distinguem, por si mesmos, o que é justo do que é apenas conveniente. Não definem o destino de uma sociedade.
É nesse ponto que a educação revela sua singularidade. Ela forma bússolas. Mapas mostram possibilidades. Bússolas revelam direção. A educação existe para formar pessoas capazes de escolher o norte.
Esse norte não é um lugar geográfico. É um horizonte ético.
É a capacidade de orientar decisões por princípios, reconhecer a dignidade do outro e compreender que conhecimento sem responsabilidade pode ampliar capacidades, mas não garante sabedoria.
Essa é a principal diferença entre uma sociedade que apenas domina tecnologias e outra que sabe colocá-las a serviço do bem comum.
Em um mundo onde máquinas produzem respostas com velocidade crescente, a tarefa mais humana da educação passa a ser formar pessoas capazes de decidir quais indagações continuam merecendo ser feitas, quais valores devem orientar as respostas e que futuro desejamos construir coletivamente.
Utilização na Educação Básica
A partir dessa perspectiva, a discussão sobre o uso dessas ferramentas na Educação Básica ganha um novo significado.
As diretrizes que vierem a orientar sua utilização serão importantes. Escolas precisarão rever práticas pedagógicas, investir na formação de professores, discutir critérios para avaliação, fortalecer a proteção de dados, promover o uso ético das tecnologias e ampliar oportunidades de aprendizagem.
Tudo isso é necessário. Mas nada disso será suficiente se perdermos de vista o propósito que dá sentido a essas escolhas. Currículos não existem apenas para organizar conteúdos. Tecnologias não existem apenas para ampliar eficiência. Avaliações não existem apenas para medir desempenho. Cada uma dessas decisões expressa determinada compreensão do que significa educar.
Nenhuma política educacional é neutra. Toda escolha curricular, toda forma de avaliar e toda tecnologia incorporada à escola traduzem uma visão sobre a pessoa que desejamos formar e sobre a sociedade que pretendemos construir. É por isso que as decisões tomadas hoje ultrapassam o campo pedagógico: elas participam da definição do projeto de país que estamos construindo para as próximas gerações.
Se acreditarmos que a missão da escola é apenas transmitir informações, provavelmente mediremos seu sucesso pela quantidade de conteúdos oferecidos ou pela velocidade com que novas ferramentas são incorporadas ao cotidiano escolar.
Mas, se compreendermos que educar é formar pessoas capazes de escolher o norte, as prioridades também se transformam.
A escola passa a ser reconhecida como o espaço em que conhecimento, convivência, pensamento crítico, responsabilidade, criatividade e compromisso com o bem comum se articulam para formar cidadãos preparados não apenas para responder aos desafios do presente, mas também para participar conscientemente da construção do futuro.
Nesse contexto, a tecnologia deixa de ser compreendida como um fim em si mesma. Ela passa a ocupar o lugar que toda ferramenta deveria ocupar: o de instrumento a serviço de um projeto educativo orientado por valores humanos.
Por isso, a principal contribuição da consulta pública promovida pelo Conselho Nacional de Educação pode ir além do estabelecimento de parâmetros para o uso desses sistemas nas escolas.
Seu legado será ainda mais profundo se ela provocar uma reflexão nacional sobre quais capacidades humanas a educação brasileira precisa cultivar em uma sociedade profundamente transformada pelas tecnologias digitais.
Essa é uma das decisões mais importantes diante de nós
A escolha influenciará não apenas a maneira como utilizaremos essas ferramentas nas salas de aula, mas, sobretudo, o tipo de cidadania que fortaleceremos, a qualidade da democracia que desejamos preservar e o futuro da sociedade que construiremos por meio da educação.
As tecnologias continuarão a evoluir. Novas ferramentas surgirão.
Outras desaparecerão. Modelos mais sofisticados substituirão aqueles que hoje parecem revolucionários. Essa dinâmica faz parte da própria história da inovação.
O que permanecerá em aberto será uma questão essencial: que tipo de ser humano desejamos formar?
Essa indagação antecede qualquer decisão tecnológica e sobreviverá a todas elas.
A consulta pública do Conselho Nacional de Educação representa, portanto, uma oportunidade que ultrapassa a elaboração de diretrizes para ferramentas digitais. Ela convida o país a refletir coletivamente sobre a finalidade da educação em um tempo de profundas transformações.
Esse é o verdadeiro desafio do nosso tempo. Não apenas aprender a conviver com máquinas cada vez mais inteligentes. Mas assegurar que a inteligência humana continue sendo orientada pela ética, pelo discernimento, pela responsabilidade e pelo compromisso com a dignidade de todas as pessoas.
Porque tecnologias podem ampliar capacidades. Mas somente a educação pode formar consciências. Ela é o espaço onde aprendemos que conhecimento e humanidade não caminham, necessariamente, na mesma direção; que progresso técnico não substitui responsabilidade moral; e que nenhuma inovação será verdadeiramente transformadora se não contribuir para ampliar a justiça, fortalecer a democracia e preservar a dignidade humana.
Ao final, o ponto mais importante não é o que as novas tecnologias serão capazes de fazer pela educação.
A questão decisiva é outra: que educação será capaz de formar pessoas para decidir, com sabedoria, o futuro que desejamos construir com a Inteligência Artificial?
Porque mapas continuarão a se multiplicar. Mas o futuro dependerá, como sempre dependeu, das bússolas que escolhermos formar.
Presidente da Fundação PoliSaber, diretor do Cursinho da Poli e membro titular da Mesa Diretora da Comissão Nacional para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (CNODS).

