O novo PNE nasce mais estruturado e com maior capacidade de organização sistêmica, e se articula ao Sistema Nacional de Educação, que busca fortalecer a cooperação entre União, estados e municípios
O Brasil acaba de sancionar um novo Plano Nacional de Educação, instituído como política de Estado para o período de 2026 a 2036.

Trata-se de um marco relevante para a organização das políticas educacionais no país, não apenas por seu conteúdo, mas pelo momento em que surge: após uma década em que o plano anterior, aprovado em 2014, teve parte de suas metas não cumpridas.
O novo PNE nasce mais estruturado e com maior capacidade de organização sistêmica. Com 19 objetivos, 73 metas e 372 estratégias, incorpora mecanismos de monitoramento contínuo e se articula ao Sistema Nacional de Educação, recentemente aprovado, que busca fortalecer a cooperação entre União, estados e municípios.
Ao estabelecer avaliações periódicas, metas claras e responsabilidades compartilhadas, o país dá um passo importante na tentativa de transformar planejamento em execução.
Em muitos aspectos, o novo PNE se assemelha a um sofisticado sistema de navegação. Ele estabelece direções, organiza prioridades, acompanha trajetórias e permite corrigir desvios ao longo do percurso.
Depois de anos em que o principal desafio foi ampliar o acesso à escola, o plano sinaliza uma inflexão relevante: o foco agora recai sobre a aprendizagem, a equidade e a trajetória educacional dos estudantes.
Esse avanço não é trivial. A introdução de metas relacionadas ao desempenho, à alfabetização na idade adequada e à conclusão das etapas escolares representa uma mudança importante no modo como o país compreende seus desafios educacionais.
O que antes era medido pela presença na escola passa a ser avaliado também pela qualidade do percurso formativo. Mas há uma questão central que merece atenção: nenhum sistema de navegação, por mais preciso que seja, substitui o território real.
A educação acontece em espaços concretos, marcados por histórias, identidades, desigualdades e relações humanas que não cabem integralmente em indicadores.
Se o plano se limita a organizar rotas, sem considerar a complexidade do caminho, corre o risco de produzir deslocamentos formais, sem garantir que a experiência educacional seja, de fato, significativa.
É nesse ponto que o Sistema Nacional de Educação, também recentemente aprovado, assume papel central.
Ao estruturar a governança federativa, criar instâncias de pactuação e estabelecer mecanismos de acompanhamento, o SNE oferece as condições institucionais para que o PNE seja executado de forma mais coordenada. Trata-se de um avanço necessário em um país historicamente marcado pela fragmentação de políticas públicas.
No entanto, a mesma estrutura que pode fortalecer a coordenação pode, se mal conduzida, induzir a uma padronização excessiva.
Ao organizar o sistema em torno de metas nacionais, indicadores comparáveis e ciclos regulares de avaliação, há o risco de que a diversidade educacional brasileira seja reduzida a parâmetros comuns que nem sempre dialogam com as realidades locais.
Em um país continental, com profundas desigualdades regionais e culturais, a busca por equidade não pode significar homogeneização. Esse é o ponto de tensão mais delicado do novo ciclo educacional: equilibrar coordenação e autonomia.
De um lado, é inegável a necessidade de um sistema mais articulado, capaz de garantir direitos educacionais mínimos em todo o território nacional.
De outro, é igualmente fundamental preservar a capacidade das escolas de dialogar com seus contextos, construir projetos pedagógicos próprios e reconhecer as identidades dos estudantes que atendem.
Quando esse equilíbrio se perde, o risco é claro: a escola passa a ser compreendida como uma unidade de desempenho, e não como um espaço vivo de formação humana.
Nesse cenário, emerge um segundo desafio, ainda pouco explorado no debate público: a centralidade da relação pedagógica. A aprendizagem não se realiza exclusivamente por metas ou indicadores, mas pela qualidade da interação entre educador e estudante, pela mediação intencional do conhecimento e pela capacidade de construir sentido a partir da experiência escolar.
Ao valorizar o monitoramento e os resultados, o novo PNE avança em relação ao passado. Ainda assim, se não for acompanhado de uma reflexão mais profunda sobre as condições concretas de ensino e aprendizagem, pode reforçar uma compreensão restrita de educação, na qual o estudante se torna um dado estatístico e o professor, um executor de metas.
Há ainda um terceiro ponto que merece atenção: a diferença entre acesso, aprendizagem e permanência. O Brasil avançou de forma significativa na garantia do acesso à escola. O novo plano busca avançar na aprendizagem. No entanto, o desafio da permanência qualificada, aquela que reconhece o estudante em sua integralidade, sem exigir que ele abandone sua identidade para se adaptar ao sistema, permanece como uma agenda em aberto.
Nesse sentido, falar em equidade exige ir além da distribuição de oportunidades. Exige reconhecer trajetórias, contextos e formas diversas de aprender. Exige, sobretudo, compreender que inclusão não se resume à presença na escola, mas envolve pertencimento, participação e desenvolvimento pleno.
O novo PNE, ao estabelecer metas e diretrizes para a próxima década, cria uma oportunidade concreta de avanço. Ainda assim, seu sucesso não dependerá apenas da qualidade de sua formulação ou da robustez de seus mecanismos de monitoramento. Dependerá, sobretudo, da forma como será implementado nos territórios, nas redes e, principalmente, nas escolas.
O desafio do Brasil, nos próximos dez anos, não será apenas cumprir metas, mas transformar essas metas em experiências educacionais significativas e efetivas. Mais do que seguir rotas previamente definidas, será necessário garantir que o percurso educacional faça sentido para quem o percorre.
Em síntese, o risco do novo PNE não está apenas em não ser cumprido, mas em ser executado de forma tecnicamente eficiente e pedagogicamente limitada. Porque, ao contrário de um sistema de navegação, a educação não se realiza apenas ao chegar ao destino; ela se constrói no caminho.
Presidente da Fundação PoliSaber, diretor do Cursinho da Poli e membro titular da Mesa Diretora da Comissão Nacional para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (CNODS).
