Depois da lei, começa o verdadeiro desafio da escola

Depois da lei, começa o verdadeiro desafio da escola

A primeira pesquisa nacional sobre a restrição de celulares nas escolas revela impactos positivos na convivência e na atenção dos estudantes. O grande desafio agora vai além de proibir os aparelhos, exigindo a construção de uma cultura digital que desenvolva a autonomia dos jovens

Há um ano, o Brasil passou a restringir o uso de celulares para fins não pedagógicos nas escolas de educação básica. Agora, a primeira pesquisa nacional sobre a implementação da Lei nº 15.100 revela que a medida foi amplamente incorporada pelas redes de ensino e já produz impactos positivos percebidos pelos gestores.

Segundo o levantamento, 92% das escolas já implementaram a lei. A permissão irrestrita do uso dos celulares praticamente desapareceu, enquanto aumentou significativamente o número de escolas que restringem seu uso aos momentos pedagógicos mediados pelos professores. Os gestores também relatam melhorias na concentração, na participação dos estudantes, na convivência e até na redução da ansiedade dos estudantes.

São resultados que merecem ser reconhecidos. Organizar o ambiente escolar era necessário.

Mas, enquanto lia o relatório, uma reflexão não saía da minha cabeça.

Restringir o uso do celular é suficiente para preparar os estudantes para viver em uma sociedade digital?

Porque existe uma diferença importante entre essas duas coisas. Uma regra pode dizer ao estudante que ele não deve usar o celular durante a aula. Mas apenas a aprendizagem pode ajudá-lo a compreender quando, por que e para que a tecnologia faz sentido.

A lei responde ao comportamento. A educação precisa responder ao desenvolvimento da autonomia. E talvez essa seja a principal agenda que se abre daqui para frente.

A própria pesquisa oferece pistas nessa direção. Ela mostra que a restrição ao uso do celular não reduziu o uso pedagógico das tecnologias. Pelo contrário, 86% dos gestores afirmam que as atividades pedagógicas com recursos digitais não diminuíram, e parte deles relata até ampliação dessas práticas. Além disso, 72% entendem que a restrição não compromete o desenvolvimento das habilidades digitais dos estudantes. Nas reflexões finais, o próprio relatório conclui que a restrição ao uso indiscriminado do celular e a educação digital são agendas complementares, e não antagônicas.

Esse talvez seja o dado mais importante de toda a pesquisa. O problema nunca foi a tecnologia. O problema sempre foi o uso sem intenção pedagógica, sem mediação e sem critérios. Isso muda completamente o foco da discussão.

O desafio da escola não é apenas manter celulares guardados. É desenvolver pessoas capazes de fazer boas escolhas quando o celular estiver em suas mãos.

E isso não se constrói por decreto. Constrói-se por aprendizagem e começa pela liderança.

São os gestores que definem prioridades, constroem uma visão compartilhada, sustentam mudanças e ajudam a transformar regras em cultura.

Passa pelos professores. Não basta conhecer plataformas, aplicativos ou ferramentas de inteligência artificial. O desafio é desenvolver repertório para decidir quando a tecnologia potencializa a aprendizagem e quando ela apenas disputa a atenção dos estudantes.

Envolve também as famílias. Educação digital não é responsabilidade exclusiva da escola. Os critérios construídos dentro da sala de aula precisam encontrar continuidade nas experiências vividas fora dela.

E, principalmente, chega aos estudantes. Guardar o celular porque existe uma regra é um comportamento. Saber quando utilizá-lo, quando deixá-lo de lado, avaliar criticamente informações, agir de forma ética nas redes, compreender os impactos da inteligência artificial e fazer escolhas conscientes é outra coisa.

Esse é o verdadeiro desafio da educação

Porque educar não é apenas regular comportamentos. É desenvolver a capacidade de fazer boas escolhas, mesmo quando ninguém está olhando.

Existe ainda um quinto aspecto que considero decisivo. A capacidade da própria escola de aprender continuamente. Tenho defendido há bastante tempo que as escolas precisam se reconhecer como organizações aprendentes.

As tecnologias mudam. A inteligência artificial muda. As formas de aprender mudam. Os estudantes mudam. As famílias mudam.

Se tudo muda, a escola também precisa aprender.

Não existe um manual definitivo para construir uma cultura digital. Existe uma organização capaz de observar, experimentar, refletir sobre suas práticas, fazer ajustes e aprender continuamente. Talvez esse seja o próximo passo da educação brasileira.

A pesquisa mostra que conseguimos implementar uma política pública.

Agora precisamos desenvolver uma cultura de aprendizagem capaz de preparar estudantes — e também educadores — para viver, aprender e decidir em uma sociedade profundamente digital. É ela que transforma regras em consciência, controle em autonomia e tecnologia em uma oportunidade de desenvolvimento humano.