Em tempos de desinformação, uma das maneiras de trabalhar a Educação Midiática e combater notícias falsas é a leitura de notícias
Quando era jovem, meu pai me contou que havia em seu país de origem, a Romênia, jornais para crianças e adolescentes, geralmente como encartes em jornais diários. Mais tarde, conheci alguns jornais atuais para este público, na França e nos países nórdicos. Não eram apenas conteúdos com brincadeiras ou joguinhos e sim notícias do cotidiano com uma linguagem apropriada a essas faixas etárias.
Em tempos de desinformação, lembrei-me que uma das maneiras de trabalhar Educação Midiática e combater notícias falsas é criar o hábito, entre os jovens, de ler notícias de alguma fonte mais confiável do que redes sociais.
Tenho acompanhado alguns desses jornais que surgiram no Brasil, inclusive o Joca e a Folhinha de São Paulo. Há também um jornal destinado a cobrir notícias econômicas chamado Tino, muito interessante tanto pelo noticiário, como pela linguagem própria para adolescentes
E por que a educação midiática é importante? Trata-se de um componente da formação de crianças e jovens, não só para sua proteção e saúde mental, como também para o exercício de uma cidadania informada e até para um bom entendimento dos conteúdos de diferentes áreas do conhecimento. Envolve não apenas a compreensão do funcionamento dos meios de comunicação e a interpretação de seus conteúdos, permitindo diferenciar fatos de opiniões, como aprender a ser autor em diferentes mídias, produzindo textos autorais, com responsabilidade e ética.
Há alguns anos, participei em um painel num evento sobre educação em Buenos Aires junto com o professor britânico David Buckingham, que criou o curso de Educação Midiática na Inglaterra. Ao ouvi-lo falar dei-me conta da importância do tema para nossos jovens.
Foi, portanto, com grande alegria que vi o tema, já contemplado na Base Nacional Comum Curricular, a BNCC, aparecer em uma resolução de 2025 do Conselho Nacional de Educação, trazendo orientações de como incorporar a educação midiática às práticas escolares das escolas. Recomenda, entre outros pontos, que haja progressividade na introdução de recursos digitais do ensino fundamental ao médio, acompanhando o desenvolvimento da autonomia dos estudantes e sugere que as atividades escolares fomentem o letramento midiático, incluindo o pensamento crítico frente às mídias, as habilidades de produção e análise de conteúdos, bem como o uso ético e responsável das plataformas digitais.
Este último ponto ganhou visibilidade no ano passado, frente às denúncias de adultização infantil, processo pelo qual crianças são expostas precocemente a comportamentos, conteúdos e padrões estéticos típicos da vida adulta. A partir disso, uma lei para enfrentar os riscos que o acesso ao mundo digital poderia trazer à proteção das crianças e jovens acabou sendo aprovada.
Tão importante quanto evitar os danos trazidos por ação criminosa de indivíduos e plataformas é educar os jovens para uma navegação segura na Internet, aprender a pesquisar tanto em livros físicos como em meio digital.
Mas se há algo que precisamos fazer com mais intensidade no Brasil é fomentar nas escolas a leitura de textos de não ficção e, assim, ensinar os jovens a fazer análises mais aprofundadas, uma habilidade fundamental em tempos de substituição de postos de trabalho por Inteligência Artificial. Neste sentido, jornais próprios para a faixa etária podem ser fortes aliados do processo educacional.
O jornal impresso ou digital é uma fonte de informação estruturada, com critérios de apuração e responsabilidade editorial. Ao entrar na escola e nas casas, o jornal ajuda crianças e adolescentes a se habituarem ao consumo de informação verificada, contrastando com o fluxo caótico e desinformativo das redes sociais. Mais ainda, nas mãos de bons professores, eles podem se tornar material interessante para atividades “mão na massa”, em sala de aula, permitindo identificar vieses, observar fontes e comparar abordagens. Mais importante ainda, a Educação Midiática e o jornal na escola trazem a oportunidade de formar crianças e adolescentes para serem cidadãos informados e participantes ativos em suas comunidades.
Educadora e especialista em políticas públicas com uma carreira de destaque no Brasil e no exterior. Foi secretária de Educação do Rio de Janeiro, secretária de Cultura de São Paulo, ministra da administração e reforma e diretora sênior de Educação Global no Banco Mundial. Foi professora visitante nas faculdades de educação das universidades de Harvard e Stanford. Fundou o Centro de Políticas Educacionais da FGV e o Instituto Salto -pensado para dar escala às melhores práticas na Educação, Costin vem explorando há anos o impacto da tecnologia, incluindo a inteligência artificial, na educação. Seu trabalho une visões locais e globais, tornando-a uma voz essencial nos debates educacionais contemporâneos.

