Você sabe conversar com quem funciona diferente de você?

Você sabe conversar com quem funciona diferente de você?

Clima escolar não é um conceito abstrato, é a soma de milhares de pequenas interações cotidianas

Tenho defendido há algum tempo que toda transformação institucional passa pelas conversas. Afinal, uma escola é feita delas. Conversamos para planejar, decidir, orientar, dar feedback, resolver conflitos, atender famílias, acompanhar estudantes e construir acordos.

Mas há uma questão que me interessa especialmente: por que algumas conversas fluem com tanta facilidade enquanto outras, mesmo quando todos estão bem-intencionados, parecem travar?

Por que uma orientação que para uma pessoa soa objetiva e clara pode serrecebida por outra como dura? Por que alguém que precisa de mais informações antes de tomar uma decisão pode ser interpretado como resistente? Ou uma pessoa mais expansiva e espontânea pode ser vista como pouco organizada?

Nem sempre estamos diante de um problema de comunicação. Muitas vezes, estamos diante de pessoas que simplesmente funcionam de maneiras diferentes.

E foi justamente por isso que o DISC passou a ocupar um espaço importante no meu trabalho com educadores e lideranças.

Afinal, o que é o DISC?

O DISC foi desenvolvido a partir dos estudos de William Moulton Marston, na década de 1920, e descreve quatro grandes tendências comportamentais: Dominância, Influência, Estabilidade e Conformidade.

De maneira bastante simplificada, ele nos ajuda a compreender padrões na forma como as pessoas tendem a agir, se comunicar, tomar decisões e responder às situações.

Algumas são mais rápidas, diretas e orientadas a resultados. Outras são mais comunicativas, expansivas e relacionais. Há aquelas que valorizam estabilidade, cooperação e previsibilidade. E outras que dirigem maior atenção aos critérios, aos dados, à qualidade e à precisão.

É claro que ninguém cabe inteiro em uma letra. Somos muito mais complexos do que qualquer instrumento consegue descrever.

E, quanto mais trabalho com o DISC, menos me interessam as letras isoladamente. O que me interessa é o que acontece quando uma pessoa percebe que aquele comportamento que tanto a incomoda no outro pode simplesmente nascer de uma forma diferente de funcionar.

Para mim, é aí que está uma das maiores contribuições dessa ferramenta: ampliar a consciência sobre nós mesmos e, a partir dela, ampliar, também, nossa capacidade de compreender o outro.

Quando diferenças viram julgamentos

Imagine uma coordenadora pedagógica que valoriza planejamento, critérios, informações e detalhamento trabalhando com um professor muito mais expansivo, relacional e espontâneo.

Ela pode interpretar a espontaneidade dele como falta de organização ou de cuidado. Ele pode perceber a preocupação dela com os detalhes como rigidez ou excesso de controle.

E, então, acontece algo muito comum nas relações. O cuidadoso vira “lento”. O objetivo vira “insensível”. O comunicativo vira “disperso”. O cauteloso vira “resistente”.

Aos poucos, deixamos de falar sobre comportamentos e começamos a definir pessoas. É uma diferença importante. Comportamentos podem ser observados, compreendidos, conversados e desenvolvidos. Quando transformamos essas mesmas características em julgamentos, fechamos boa parte dessa possibilidade.

Em uma pesquisa que realizei com profissionais que passaram por processos utilizando o DISC, mais de 85% avaliaram a experiência como muito valiosa. Entre os relatos, um aspecto me chamou especialmente a atenção: compreender melhor o perfil do outro havia tornado a comunicação mais individualizada e ampliado a consciência sobre algo que parece tão básico, mas nem sempre é — respeito e escuta.

Não foi a aprendizagem de uma nova “técnica de comunicação” que apareceu como principal ganho. Foi a possibilidade de compreender melhor quem é diferente. E talvez esse seja um dos exercícios mais difíceis nas relações: perceber que aquilo que funciona para mim não necessariamente funciona para o outro.

O que isso tem a ver com a escola?

Muito.

Porque clima escolar não se constrói apenas em grandes projetos de convivência ou nas diretrizes institucionais. Ele se constrói todos os dias.

Na forma como um recado é dado na sala dos professores. Na maneira como uma liderança recebe uma crítica. Em como um coordenador faz uma devolutiva. Na reação diante de uma discordância em uma reunião pedagógica. Na forma como um conflito é conduzido.

São milhares de pequenas interações que, repetidas ao longo do tempo, constroem confiança, abertura e colaboração — ou desgaste, silêncio e distanciamento.

Quando uma equipe começa a compreender melhor as diferenças comportamentais, muda também a maneira como interpreta o comportamento das pessoas.

Uma divergência de estilo deixa de ser automaticamente interpretada como divergência de valores. Uma pergunta deixa de ser necessariamente resistência. A necessidade de rapidez deixa de significar falta de cuidado. O silêncio não é imediatamente entendido como desinteresse. Isso não significa justificar qualquer comportamento pelo perfil. Aliás, considero esse um dos maiores riscos do uso superficial do DISC.

“Eu sou assim porque meu perfil é esse” não é autoconhecimento.

Se compreender meu perfil servir apenas para justificar meus comportamentos, conhecê-lo terá mudado muito pouco. Para mim, o valor está justamente no contrário: quanto mais consciência tenho sobre meus padrões, mais condições tenho de perceber quando eles me ajudam e quando preciso fazer diferente.

E se olhássemos para nossas equipes por essa perspectiva?

Talvez valha a pena observar a próxima reunião pedagógica.

Quem precisa falar para organizar o pensamento? Quem prefere escutar antes de se posicionar? Quem quer chegar rapidamente à decisão? Quem precisa fazer mais perguntas antes de seguir? Quem olha primeiro para as pessoas envolvidas? Quem dirige sua atenção para os resultados, os processos ou os riscos?

Nenhuma dessas pessoas está necessariamente olhando errado.

Elas podem simplesmente estar olhando para lugares diferentes.

E, talvez, a pergunta mais importante seja outra:

O que acontece comigo quando o jeito do outro é muito diferente do meu?

É claro que o DISC não resolve os desafios das relações dentro de uma escola. Aliás, nenhuma ferramenta resolve. Relações são construídas por pessoas.

Mas ele pode oferecer algo que considero muito valioso para a educação: uma lente para enxergarmos diferenças que sempre estiveram ali, mas que muitas vezes interpretamos apenas a partir do nosso próprio jeito de funcionar.

Talvez esteja aí um potencial do DISC que ainda exploramos pouco nas escolas: não colocar pessoas em quatro caixas, mas, ampliar nossa capacidade de compreender por que pessoas

diferentes pensam, reagem, decidem e se comunicam de maneiras diferentes — e o que podemos aprender com isso para construir relações

melhores.

Porque, no fim, compreender as diferenças não significa deixar de

discordar.

Significa aprender a conversar mesmo quando o outro não funciona como nós