Como o fenômeno das figurinhas estimula a economia social, o design e o afeto, e como as escolas podem transformar essa febre em ricas lições de matemática e consumo crítico
As figurinhas da Copa parecem uma brincadeira simples: comprar pacotes, abrir, colar, trocar repetidas e tentar completar o álbum. Mas, a força do fenômeno está justamente aí.
O álbum transforma a Copa em experiência cotidiana antes mesmo do primeiro jogo. Jogadores, seleções, bandeiras, escudos e estádios deixam de ser apenas informações esportivas e passam a circular como desejo, memória, conversa e negociação.
Esse hábito vem de uma cultura antiga do colecionismo. Durante décadas, existiram álbuns de desenhos, novelas, filmes, animais, carros, heróis e campeonatos. Hoje, esse costume já não ocupa o mesmo lugar no cotidiano infantil, mas retorna com força quase única na Copa do Mundo.
É um dos raros momentos em que crianças, adultos, pais, filhos e avós entram no mesmo ritual. O adulto compra “para a criança”, mas também reencontra a própria infância: a banca de jornal, o recreio, a pilha de repetidas, a ansiedade de achar a figurinha difícil. O álbum vira ponte entre gerações.
A lógica é poderosa porque funciona como jogo. Há missão, completar; há progressão, cada espaço preenchido mostra avanço; há recompensa variável, nunca se sabe o que virá no pacote; há raridade percebida, algumas figurinhas parecem impossíveis; há status, quem tem especiais ou está perto de completar ganha prestígio. E há economia social, a repetida deixa de ser sobra e vira moeda.
Por isso, “bater figurinha” é mais do que conferir números. É comparar, negociar, argumentar, recusar, ceder, esperar e lidar com frustração. Nos postos de troca, a prática ganha escala pública: crianças, pais, colecionadores e torcedores ocupam bancas, shoppings, clubes e escolas. A cidade vira tabuleiro social da Copa. Hoje, aplicativos, planilhas e grupos digitais ampliam esse processo, organizando faltantes e repetidas sem eliminar o prazer do encontro presencial.
Na escola, esse fenômeno pode ser usado com muita potência, desde que não vire incentivo acrítico ao consumo. Em matemática, ele permite discutir probabilidade: por que, quanto mais completo o álbum, mais aparecem repetidas? Em educação financeira, revela o peso dos microgastos: cada pacote parece barato, mas o custo total pode ser alto. Os alunos podem calcular o cenário ideal sem repetidas, estimar o gasto provável, comparar compra e troca e discutir quando comprar faltantes avulsas é mais racional.
Também há uma leitura crítica: o álbum opera pela incompletude. O espaço vazio incomoda, cria desejo e estimula novas compras. Por isso, a escola precisa estabelecer limites. Nenhuma atividade deve depender de comprar figurinhas reais. É possível trabalhar com álbuns fictícios, envelopes simulados, trocas produzidas pela turma e dados inventados.
O álbum ainda pode ser estudado como design: capa, cores, escudos, fotos, numeração, figurinhas especiais e organização das páginas. Nada é neutro. A estética cria valor, orienta atenção e transforma a Copa em memória visual.
As figurinhas da Copa são um fenômeno porque condensam jogo, afeto, consumo, matemática, mídia, design e pertencimento em um objeto mínimo. Elas mostram que uma prática aparentemente banal pode revelar como aprendemos, desejamos, negociamos, calculamos e participamos de uma cultura coletiva.
Professor, autor indicado ao Prêmio Jabuti. Nomeado ao Prêmio Darcy Ribeiro. Educador e Game Designer com impacto global, palestrante internacional e orientador de Feiras de Ciências. Doutor pela USP em videogames e linguagem audiovisual. Foi o 1º Microsoft Innovative Educator Fellow da América Latina. Diversas vezes premiado nas maiores feiras científicas do Brasil e do mundo, como FEBRACE, MOSTRATEC, FBJC, MOCICA, ISEF e Genius Olympiad.
