Universidade sem emprego é promessa vazia

Universidade sem emprego é promessa vazia

Mesmo em um cenário recente de recuperação do mercado de trabalho, a desigualdade geracional permanece evidente

O Brasil repete com frequência uma frase que se tornou quase um mantra social: “A educação é o caminho para mudar de vida”. A afirmação é verdadeira, mas incompleta. Para milhares de jovens brasileiros, o dilema não está em escolher qual curso seguir, mas em decidir, diariamente, entre estudar ou sobreviver.

Mesmo em um cenário recente de recuperação do mercado de trabalho, a desigualdade geracional permanece evidente. Em 2025, a taxa de desemprego entre jovens de 18 a 24 anos fechou em 11,4%, mais do que o dobro da média nacional de 5,1%, segundo dados do IBGE. A mensagem é clara: o risco de ficar sem trabalho é significativamente maior justamente na faixa etária em que a maioria dos estudantes ingressa no ensino superior.

Essa realidade produz uma equação dura: sem trabalho, não há renda; sem renda, não há permanência na universidade. Mesmo nas instituições públicas, onde não se paga mensalidade, há custos inevitáveis: transporte, alimentação, moradia e material acadêmico. A evasão universitária, portanto, raramente nasce da falta de capacidade intelectual. Ela surge, sobretudo, da falta de condições financeiras para continuar.

A equação é cruel: sem trabalho, não há renda; sem renda, não há permanência na universidade. Mesmo nas instituições públicas, onde não se paga mensalidade, há custos com transporte, alimentação, moradia e material. A evasão, portanto, não nasce da falta de capacidade intelectual, mas da falta de condições materiais.

Apesar disso, o debate público ainda insiste em tratar o acesso ao ensino superior como uma questão de mérito individual. Passou no vestibular? Conseguiu uma bolsa? Então “venceu”. O que se ignora é que entrar não significa permanecer. A universidade exige tempo, concentração, estabilidade mínima e segurança financeira. Estudar demanda energia cognitiva e emocional que dificilmente floresce quando a geladeira está vazia ou quando o medo do desemprego é constante.

O sociólogo francês Pierre Bourdieu já demonstrava, décadas atrás, que o sistema educacional tende a reproduzir desigualdades ao valorizar o chamado capital cultural herdado das famílias. Jovens de classes populares chegam ao ensino superior com menos recursos financeiros, menor rede de apoio acadêmico e menos familiaridade com o ambiente universitário. Assim, a universidade, que deveria ser um poderoso instrumento de mobilidade social, acaba exigindo uma bagagem cultural, emocional e econômica que nem todos tiveram oportunidade de construir.

Os dados recentes da educação superior no Brasil ilustram esse descompasso. O Censo da Educação Superior de 2024 registrou aproximadamente 10 milhões de matrículas, mas apenas 33% dos concluintes do ensino médio ingressaram na universidade no ano seguinte. Entre os que entram, muitos não conseguem chegar ao final do percurso: as taxas de evasão chegam a 24,1% na educação a distância e 9,5% no ensino presencial.

Há ainda um paradoxo silencioso. Em momentos de incerteza econômica, aumenta a procura por qualificação, mas os estudantes acabam aceitando trabalhos precários para sustentar os próprios estudos. Trabalham o dia todo, estudam à noite, dormem pouco e vivem sob pressão constante. Essa sobrecarga compromete o rendimento acadêmico e alimenta a evasão. O país perde profissionais qualificados, e o jovem acumula frustração e uma biografia interrompida.

A própria neurociência ajuda a explicar esse fenômeno. O estresse crônico compromete processos essenciais para a aprendizagem, como memória, atenção e tomada de decisão. Um cérebro ocupado em sobreviver tem menos espaço para aprender, refletir e inovar.

Esse problema não é novo. O ensino superior brasileiro nasceu historicamente como espaço de formação das elites. Nas últimas décadas houve avanços importantes na ampliação de vagas e no acesso, mas persistem barreiras invisíveis que continuam afastando muitos estudantes da conclusão do curso: transporte público insuficiente, insegurança alimentar, ausência de redes de apoio e dificuldade de inserção no mercado de trabalho.

Diante disso, uma pergunta se torna inevitável: estamos preparando os jovens para ingressar na universidade ou para resistir dentro dela? A escola básica concentra esforços em aprovar no vestibular, mas pouco discute planejamento financeiro, gestão do tempo, empregabilidade ou direitos estudantis. O resultado é que muitos chegam à universidade sem as ferramentas necessárias para sustentar a própria trajetória acadêmica.

Existem, contudo, experiências que mostram que esse ciclo pode ser rompido.

No interior do Paraná, sou gestora de uma faculdade privada inserida em um ecossistema de inovação que reúne mais de 130 empresas, além de universidades federais, instituto federal, colégio e uma academia de formação prática para jovens da educação básica. Nesse ambiente, conseguimos manter mais de 90% de empregabilidade dos estudantes já a partir do primeiro ano de graduação.

A lógica é simples, mas transformadora: o trabalho deixa de competir com os estudos e passa a ser uma extensão deles. Estágios, projetos aplicados e parcerias com empresas permitem que os estudantes aprendam enquanto trabalham e trabalhem enquanto aprendem. O resultado é uma formação mais conectada à realidade profissional e, ao mesmo tempo, uma solução concreta para a permanência estudantil.

Esse modelo aponta para um caminho que vai além da assistência emergencial. Programas associados com a Política Nacional de Assistência Estudantil (PNAES), atenderam cerca de 400 mil estudantes em 2024 com investimento de R$ 1,5 bilhão, são fundamentais, mas enfrentam subfinanciamento crônico com cortes de 16,7% apenas em 2024, segundo o Tribunal de Contas da União.

O desafio exige uma visão mais ampla: articular educação, inovação e desenvolvimento regional. Ecossistemas que integram universidades, empresas e poder público criam círculos virtuosos. Jovens permanecem na universidade, empresas encontram mão de obra qualificada e as regiões conseguem reter talentos que, de outra forma, migrariam ou desistiriam da formação.

Políticas públicas e estratégias institucionais podem acelerar esse movimento. Incentivos fiscais para estágios remunerados, fortalecimento de centros de carreiras nas instituições de ensino superior e avaliação institucional que considere indicadores de empregabilidade desde o primeiro ano são alguns caminhos possíveis.

A sociedade brasileira precisa decidir que projeto deseja para sua juventude. Quer formar profissionais qualificados capazes de sustentar o crescimento econômico ou continuar alimentando uma engrenagem que empurra talentos para a informalidade e para a desistência?

Experiências que integram educação, trabalho e inovação mostram que é possível construir outro cenário. Quando a universidade se conecta ao mundo real e ao desenvolvimento regional, deixa de ser apenas um espaço de formação acadêmica e passa a ser também um território de oportunidades.

Enquanto tratarmos a universidade apenas como um prêmio individual conquistado por mérito, continuaremos naturalizando a exclusão. A pergunta central não é se o jovem brasileiro quer estudar, mas se o país garante que ele estude sem abrir mão de sobreviver e de projetar um futuro digno.