Universidades começam a reagir à adoção acrítica da Inteligência Artificial no ensino superior
Nos últimos dois anos, a presença de ferramentas de inteligência artificial generativa no cotidiano universitário deixou de ser exceção para se tornar infraestrutura. Plataformas institucionais, ambientes virtuais de aprendizagem, editores de texto, buscadores e sistemas de avaliação passaram a incorporar modelos de IA como apoio à escrita, organização de ideias, correção de textos e produção de conteúdos.
Paralelamente a esse movimento de rápida integração tecnológica, começa a ganhar corpo, em diferentes países, uma tendência de reação crítica vinda de dentro da própria universidade: professores e pesquisadores que não discutem apenas “como usar” IA, mas se e em que condições ela deve fazer parte dos processos de ensino e aprendizagem.
Nos últimos meses, esse movimento se materializou na forma de cartas abertas e manifestos internacionais que questionam os impactos pedagógicos, cognitivos, institucionais e éticos da IA generativa no ensino superior.
Quem está escrevendo esses manifestos
Entre os documentos que vêm circulando no meio acadêmico, três se destacam por sua repercussão e pelo perfil de seus autores:
- Países Baixos (2025) – Stop the Uncritical Adoption of AI Technologies in Academia
Carta aberta assinada por professores e pesquisadores de áreas como Ciências Cognitivas, Inteligência Artificial, Filosofia, Educação e Psicologia, vinculados a universidades holandesas.
A carta tem como primeira signatária Olivia Guest, professora de Computational Cognitive Science na Radboud University Nijmegen. O documento foi subscrito por dezenas de acadêmicos de diferentes instituições.
Ela não propõe um banimento absoluto da IA como objeto de estudo, mas se posiciona explicitamente contra sua adoção acrítica como ferramenta pedagógica e institucional.
- Portugal (2026) – Por um Ensino Superior humanizado – Manifesto contra o uso da “inteligência” artificial generativa
Manifesto assinado por professores do ensino superior português, de universidades e politécnicos, de áreas como filosofia, educação, sociologia, ciências e humanidades.
O texto vai além da crítica operacional e defende a suspensão do uso de IA generativa nos processos de ensino-aprendizagem, argumentando que ela compromete a formação intelectual, a integridade acadêmica e a própria natureza da experiência universitária.
- Espanha / América Latina (2024) – Safe AI in Education Manifesto
Documento de natureza diferente, assinado por pesquisadores de tecnologia educacional, propondo princípios para um uso ético e seguro da IA na educação.
Embora não seja contrário ao uso da IA, ele é frequentemente citado nos manifestos críticos como parte do pano de fundo do debate, por reconhecer que a adoção tecnológica levanta problemas estruturais e não apenas técnicos.
Por que professores estão escrevendo esses textos
Apesar das diferenças de tom e proposta, os manifestos críticos partilham preocupações comuns, que ajudam a explicar por que esse movimento começa a emergir agora.
1. Impactos diretos na aprendizagem
Os autores afirmam que a IA generativa altera profundamente a relação do estudante com o estudo, a escrita e o pensamento. O receio central não é o “erro da máquina”, mas a substituição de processos formativos — como elaboração, tentativa, dúvida, revisão e construção de argumentos — por produção automática de respostas.
O argumento recorrente é que aprender não é apenas obter resultados, mas desenvolver formas de pensar, investigar, formular problemas e sustentar posições.
2. Crise de autoria e avaliação
As cartas chamam atenção para a dificuldade crescente de distinguir autoria, processo e compreensão real nos trabalhos acadêmicos. Isso afeta a integridade científica, os critérios de avaliação, a credibilidade dos diplomas e o próprio papel do professor como mediador do processo formativo.
Segundo os signatários, a universidade corre o risco de migrar de um modelo baseado em formação intelectual para um modelo centrado apenas em entrega de produtos textuais.
3. Dependência institucional e captura corporativa
Outro eixo forte é a crítica às parcerias entre universidades e grandes empresas de tecnologia. Os documentos alertam para cessão massiva de dados, integração de sistemas proprietários na infraestrutura acadêmica, redução da autonomia institucional e transformação da universidade em campo de teste e mercado de usuários.
Nesse ponto, a discussão deixa de ser pedagógica e passa a ser política e institucional.
4. Confusão entre inovação e formação
Os textos questionam a ideia de que toda inovação tecnológica seja automaticamente compatível com educação. Para os signatários, existe uma diferença entre tecnologias que apoiam processos formativos e tecnologias que substituem esses processos. Essa distinção está no centro da crítica.
Uma tendência em formação
Esses manifestos não representam ainda a posição majoritária das universidades. Mas indicam o surgimento de uma corrente internacional organizada que desloca o debate da eficiência para a formação, da ferramenta para a epistemologia, do “como usar” para o “o que estamos a perder”.
Eles mostram que a discussão sobre IA na educação começa a entrar numa segunda fase: menos deslumbrada, mais estrutural, mais preocupada com efeitos de longo prazo.
Os manifestos e cartas abertas que vêm sendo publicados oferecem um retrato cru do momento atual do ensino superior: instituições pressionadas por uma adoção acelerada de tecnologias, professores confrontados com a transformação dos processos formativos e estudantes imersos em sistemas que prometem eficiência, mas levantam dúvidas profundas sobre aprendizagem, autoria e autonomia intelectual.
Esse retrato não é, por si só, um programa de ação. Ele é um diagnóstico. Mostra onde estamos, o que está em tensão, o que começa a falhar e o que arrisca se perder.
Professor, autor indicado ao Prêmio Jabuti. Nomeado ao Prêmio Darcy Ribeiro. Educador e Game Designer com impacto global, palestrante internacional e orientador de Feiras de Ciências. Doutor pela USP em videogames e linguagem audiovisual. Foi o 1º Microsoft Innovative Educator Fellow da América Latina. Diversas vezes premiado nas maiores feiras científicas do Brasil e do mundo, como FEBRACE, MOSTRATEC, FBJC, MOCICA, ISEF e Genius Olympiad.
