A proposta não é negar evidências, mas promover reflexão. O objetivo é interromper a resposta automática do pânico e recolocar a questão em perspectiva
Mudanças cognitivas existem, tecnologias alteram hábitos e a educação enfrenta novos desafios.
Mas, transformar resultados parciais em diagnóstico de decadência humana produz mais ansiedade do que compreensão, muitas vezes são cortes e títulos fora de contexto que causam impacto.
Antes de concluir que estamos “menos inteligentes”, é preciso perguntar o que está mudando, em quais contextos e quais capacidades estamos deixando de desenvolver.
Estudos identificaram queda no desempenho de alguns testes cognitivos em determinados países, mas isso não prova que a humanidade esteja ficando menos inteligente. O problema central pode estar na distância crescente entre a velocidade do avanço tecnológico e a capacidade da educação de preparar as pessoas para esse novo cenário.
O que as pesquisas realmente mostram
Durante boa parte do século XX, pesquisadores observaram que as novas gerações obtinham resultados progressivamente melhores em testes de inteligência. Esse fenômeno ficou conhecido como efeito Flynn (Flynn, 1987).
O crescimento foi associado à expansão da escolarização, à melhoria das condições de saúde e alimentação, ao aumento da complexidade do trabalho e ao contato mais frequente com problemas abstratos.
Nas últimas décadas, porém, alguns países passaram a registrar estabilização ou queda em determinadas avaliações. Esse movimento ficou conhecido como efeito Flynn reverso.
Um dos estudos mais importantes foi realizado por Bernt Bratsberg e Ole Rogeberg (2018) com conscritos noruegueses. Os pesquisadores observaram tanto o aumento quanto a posterior redução dos resultados entre irmãos da mesma família.
Isso enfraquece explicações baseadas principalmente em mudanças genéticas e reforça a influência de fatores ambientais, educacionais e culturais.
A conclusão correta, portanto, não é que “a humanidade está ficando menos inteligente”, mas que algumas populações apresentaram pior desempenho em certas tarefas cognitivas, em determinados períodos.
Cair em um teste não significa perder inteligência
A inteligência não é uma capacidade única. Ela envolve memória, linguagem, atenção, criatividade, raciocínio, aprendizagem, adaptação e resolução de problemas. Os testes de QI medem apenas parte dessas dimensões. Seus resultados também são influenciados por escolarização, hábitos de leitura, sono, alimentação, motivação, contexto sociocultural e familiaridade com o tipo de questão apresentada.
Por isso, uma queda em determinado teste não demonstra, isoladamente, que o cérebro humano esteja piorando. Pode indicar que certas capacidades estão sendo menos treinadas, que o ambiente educacional mudou ou que os próprios instrumentos já não captam da mesma forma as habilidades valorizadas no presente.
A formulação cientificamente mais rigorosa é: algumas habilidades cognitivas parecem estar mudando, mas não existe evidência suficiente de uma redução geral da inteligência humana.
A corrida entre tecnologia e educação
Apontamos que a discussão mais importante não está nos testes de QI, mas na velocidade desigual com que tecnologia e educação avançam. A educação não é homogênea.
No livro The Race Between Education and Technology, Claudia Goldin e Lawrence Katz (2008) argumentam que o desenvolvimento das sociedades depende de uma corrida permanente entre a inovação tecnológica e a capacidade dos sistemas educacionais de formar pessoas para compreender e utilizar essas novas tecnologias.
Durante a Revolução Industrial, as máquinas transformaram rapidamente o trabalho e produziram um período de desorganização e sofrimento social. A expansão da educação pública ajudou a reduzir essa distância, preparando mais pessoas para as novas formas de produção e contribuindo para um ciclo de prosperidade.
Hoje, inteligência artificial, automação e plataformas digitais recriam esse desequilíbrio. A tecnologia evolui rapidamente, enquanto muitos sistemas educacionais ainda funcionam com estruturas concebidas para um mundo anterior à internet.
A corrida entre tecnologia e educação. Adaptado de Goldin e Katz (2008)
A figura representa justamente esse movimento: quando a tecnologia avança mais rápido do que a educação, cresce a distância entre as competências exigidas pela sociedade e aquelas efetivamente desenvolvidas pela população. O resultado pode ser desigualdade, insegurança profissional e sensação de despreparo coletivo.
O problema pode estar na formação, não na inteligência
Uma pessoa pode ter acesso a uma quantidade imensa de informação e, ainda assim, encontrar dificuldades para interpretar um texto longo, verificar uma fonte, comparar argumentos, manter a atenção ou resolver um problema sem auxílio imediato. Isso não comprova uma perda biológica de inteligência. Pode revelar que o ambiente atual estimula determinadas habilidades e reduz a prática de outras. Quando o celular armazena números, fornece rotas, corrige textos e responde perguntas, parte do esforço cognitivo é transferida para a ferramenta. Essa transferência não é necessariamente ruim. A escrita, o livro e a calculadora também ampliaram capacidades humanas.
O problema surge quando a tecnologia deixa de apoiar o pensamento e passa a substituí-lo. Nesse caso, podemos desenvolver uma forma de dependência cognitiva: sabemos acionar a ferramenta, mas temos dificuldade para avaliar criticamente a resposta produzida.
A questão não é apenas saber utilizar tecnologias, mas compreender problemas, formular boas perguntas, examinar evidências e decidir quando uma resposta é confiável.
O desafio da inteligência artificial
A inteligência artificial amplia esse dilema. Ela pode ajudar estudantes a pesquisar, organizar informações, comparar hipóteses, revisar textos e compreender conteúdos complexos.
Também pode permitir que alguém produza uma resposta aparentemente adequada sem ter compreendido o problema, examinado as fontes ou construído uma argumentação própria. A diferença está no modo de uso.
Quando a IA é utilizada para testar ideias, receber críticas, explorar alternativas e aprofundar uma investigação, ela pode ampliar a aprendizagem. Quando serve apenas para evitar leitura, escrita, esforço e reflexão, pode enfraquecer justamente os processos cognitivos que deveriam ser desenvolvidos.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja se estamos ficando menos inteligentes, mas quais habilidades estamos deixando de exercitar e quais capacidades a educação precisa desenvolver para que as pessoas não sejam apenas usuárias, mas intérpretes críticas das tecnologias.
A ciência ainda não permite afirmar que a inteligência humana esteja diminuindo de forma geral. O que sabemos é que algumas habilidades caíram em determinados grupos de análise, enquanto outras podem estar sendo transformadas pelo ambiente social e tecnológico. A tecnologia continuará avançando e a forma como lidamos com a informação também.
O desafio é fazer com que a educação, a cultura científica, a leitura crítica e a capacidade de formular problemas avancem com ela. O risco não está simplesmente em as máquinas se tornarem mais inteligentes. Está em construirmos sistemas tecnológicos cada vez mais poderosos sem formar pessoas capazes de compreender seus limites, questionar suas respostas e decidir o que fazer com elas, inclusive não cair em pânico pela desinformação e permitir eventualmente preocupação com os próximos passos da humanidade.
Professor, autor indicado ao Prêmio Jabuti. Nomeado ao Prêmio Darcy Ribeiro. Educador e Game Designer com impacto global, palestrante internacional e orientador de Feiras de Ciências. Doutor pela USP em videogames e linguagem audiovisual. Foi o 1º Microsoft Innovative Educator Fellow da América Latina. Diversas vezes premiado nas maiores feiras científicas do Brasil e do mundo, como FEBRACE, MOSTRATEC, FBJC, MOCICA, ISEF e Genius Olympiad.

