Quem somos nós e o que podemos ser

Quem somos nós e o que podemos ser

A geração mais jovem é menos racistas, mais plural e aberta, mas vive em situação mais instável e precária. E é insegura

Li, neste início de ano, “Brasil no Espelho”, um interessante livro do cientista político Felipe Nunes, que eu já havia encontrado antes em outra obra, a “Biografia do Abismo”, assinada por ele e por Thomas Traumann. 

Escrita a partir de um estudo de 2023, em que uma amostra representativa da população brasileira foi entrevistada sobre suas crenças e valores, o Brasil no Espelho nos coloca frente a frente com um país que pode ser conservador nos valores, apreciador da família tradicional, religioso, crescentemente evangélico, mas que se identifica como plural e, mesmo ainda se mantendo preconceituoso, consegue, ou ao menos tenta, na média, abraçar a diversidade, especialmente a geração mais jovem.

Visão do Brasil, segundo a obra

É um país que expressa o desejo reduzir nossas enormes desigualdades, mas não gosta das medidas mais conducentes a uma redução efetiva, como as políticas sociais focadas. Associam a assistência necessária do Estado à necessidade de esforços por parte dos mais vulneráveis, o “fazer por merecer”. 

Trata-se também de um Brasil que não quer uma ampla privatização do Estado e que defende educação e saúde como áreas importantes de atuação do poder público. Por outro lado, julgam os governantes prioritariamente pelas entregas que fazem, a partir dos recursos que recebem dos contribuintes.

Sim, esta é a média da população, mas o que vemos no espelho é bem mais nuançado. Para aprofundar a compreensão sobre quem somos, a pesquisa criou categorias que aproximavam crenças semelhantes e uma interessante taxonomia de gerações. 

Diferentes grupos e suas percepções

Valeu a pena o esforço: com isso podemos aprofundar a compreensão do que pensam grupos distintos não a partir dos estereótipos que sobre eles construímos, mas com base na média de opiniões e crenças que são expressas por cada grupo ou geração.

Descobrimos, por exemplo, que os integrantes do que o autor chama de Geração.Com (os mais jovens) são menos racistas, mais plurais e abertos, mas vivem em situação mais instável e precária e, inseguros, demandam mais ordem e, nisso, se parecem com as outras gerações. 

Além disso, visualizamos um país que não lê jornais ou assiste telejornais e se informa em grupos de WhatsApp ou redes sociais, onde as pessoas dialogam sobretudo com suas bolhas. 

Mas, evidentemente o que somos é influenciado pelo que se passa no mundo, mesmo que não tenhamos lido nada a respeito. 

O papel da Educação

Neste contexto, o que pode a Educação fazer para ajudar a construir uma sociedade mais inclusiva e coesa para podermos, no futuro, ver-nos de forma distinta no espelho?

Em primeiro lugar, deve transformar a escola. Precisamos de unidades escolares que ensinem a pensar, não apenas a decorar livros didáticos. Para tanto, será fundamental reservar tempo nas aulas para discutir eventos contemporâneos e suas bases históricas. Muitos países com bons sistemas já fazem isso. 

Além disso, precisamos formar os professores para uma prática mais reflexiva. Prepará-los para dar menos respostas prontas para os alunos e para estimulá-los com mais perguntas. Fazer com que eles pesquisem o que se passa no Brasil e no mundo, por meio de leitura de jornais e discussões mais aprofundadas. Aqui também, a Educação Midiática pode ajudar bastante. 

Mas não é só a escola que educa. Os responsáveis pelas crianças e jovens também. Se nós adultos continuarmos a nos informar apenas nas nossas bolhas, estaremos definitivamente garantindo a reprodução de modelos artificialmente simplificados e polarizados de explicação da realidade para as próximas gerações.