Precisamos de mais políticas públicas, no Brasil, que proporcionem aos professores melhores condições de trabalho
Estive, no início de fevereiro em Dubai, com uma dupla agenda: participar na reunião semestral do Conselho Consultivo de Educação da Nord Anglia, uma organização que reúne algumas das escolas de mais prestígio do mundo, e acompanhar o “Global Teacher Prize”, um prêmio oferecido todos os anos a professores que se destacam e, assim, divulgar suas práticas. Integro o júri que seleciona os dez melhores professores. Por acaso, os dois eventos aconteceram em dias próximos e pude participar dos dois.
Com isso, tive a oportunidade de visitar diferentes escolas na cidade e conversar com os docentes que conhecia só por seus portfólios. Vi lá escolas com uma infraestrutura e um ensino invejáveis, mas lembrei-me de uma conversa reveladora que tive com o Ministro da Educação dos Emirados há cerca de dez anos, quando trabalhava no Banco Mundial, em que ele me contou que uma parcela muito grande da população é de expatriados, executivos que migram com suas famílias para atuar em grandes corporações. Assim, a rede pública é muito diminuta e boa parte do papel do governo em educação acaba consistindo em regular as escolas privadas que atendem famílias privilegiadas
Na reunião da Nord Anglia discutimos formação de professores e pude destacar o caso da América Latina onde, com a exceção do Chile, boa parte dos países enfatiza teoria sobre a prática nas licenciaturas. No Brasil, 8 em cada 10 professores são formados exclusivamente à distância. Pensamos em maneiras que um grupo como a Nord Anglia poderia apoiar um melhor preparo para nossos mestres, seja na formação inicial, seja no desenvolvimento profissional.
Mas o que mais me motivou nessa viagem foi a conversa com professores finalistas do Global Teacher Prize. Sentei-me numa mesa com professores da Zâmbia, do Vietnã, das Filipinas e da Indonésia. Sim, as condições de trabalho destes docentes não são as ideais, mas eles foram selecionados não por conta disso, ou por pena, mas por suas excelentes práticas nas condições em que atuam. Assim, deram visibilidade e asseguraram reconhecimento ao seu trabalho.
Juntei-me depois com mestres da América Latina, muitos deles de áreas de vulnerabilidade na Argentina e pude ouvir relatos em primeira pessoa de alguns deles. Mais tarde, conversei demoradamente com a Débora Garofalo, do Brasil, que já havia sido selecionada como uma das 10 melhores professoras do mundo em 2019, oportunidade em que também integrei o júri, a partir de um trabalho numa escola municipal de São Paulo, em área de alta vulnerabilidade, com robótica a partir de sucata coletada num lixão. Nesta edição do prêmio, ela foi reconhecida como a professora de “Maior Influência no Mundo”.
Voltei com a sensação de que sim, precisamos de mais políticas públicas que proporcionem aos professores melhores condições de trabalho e, aos alunos, mais possibilidades de aprendizagem mais sólidas para todos. Neste sentido, passar a ter educação em tempo integral, como em países com bons sistemas pode ajudar muito, especialmente se os professores forem alocados a uma única escola. Mas, é importante lembrar que tudo começa com uma formação de qualidade e com muita valorização profissional, não num sentido genérico ou vazio, e sim a partir de suas boas práticas em cada sala de aula.

Educadora e especialista em políticas públicas com uma carreira de destaque no Brasil e no exterior. Foi secretária de Educação do Rio de Janeiro, secretária de Cultura de São Paulo, ministra da administração e reforma e diretora sênior de Educação Global no Banco Mundial. Foi professora visitante nas faculdades de educação das universidades de Harvard e Stanford. Fundou o Centro de Políticas Educacionais da FGV e o Instituto Salto -pensado para dar escala às melhores práticas na Educação, Costin vem explorando há anos o impacto da tecnologia, incluindo a inteligência artificial, na educação. Seu trabalho une visões locais e globais, tornando-a uma voz essencial nos debates educacionais contemporâneos.
