Ícone do site Educação & Tendências l Onde o presente da educação encontra o futuro

Políticas públicas ou cultura do espetáculo?

Políticas públicas ou cultura do espetáculo?

“Não se esqueçam que a única coisa que um tirano não pode tirar de vocês é o que a educação colocou nas suas cabeças”

A opção por atuar em Educação me veio muito cedo na vida, ao constatar que minha mãe, nascida na Hungria, teve seu acesso à escola negado pela vida. Refugiada de guerra, não logrou terminar o que, à época, era chamado de ginásio, dado seu limitado domínio da Língua Portuguesa como norma culta para passar no exame de admissão. 

Por conta disso, ela constantemente nos dizia, a nós, seus três filhos: “Não se esqueçam que a única coisa que um tirano não pode tirar de vocês é o que a educação colocou nas suas cabeças!”.

Acabei, no entanto, após ter feito o Magistério de nível médio, cursando, no ensino superior, Administração Pública, enquanto dava aulas de EJA (Educação de Jovens e Adultos). Não foi uma escolha minha, mas isto é outra longa história que não lograrei explicar neste espaço curto.

Educação para além da sala de aula

Mesmo sem ter escolhido, ter focado em políticas públicas me ajudou a enxergar a Educação para além da sala de aula. Sim, o processo de ensino-aprendizagem ocorre na relação entre professor e alunos, mas como assegurar condições para que ela ocorra com mais qualidade e, sobretudo, como assegurar equidade, ou seja, dar mais a quem tem menos, sem olhar para o conjunto das escolas e alocar professores, com os devidos apoios adicionais, a cada escola? 

A política educacional tem importante papel em construir essas condições, mesmo antes que as aulas aconteçam. Isso passa, entre outras tarefas, por ampliar a atratividade da profissão de professor, garantir aos mestres boa formação, tanto inicial como continuada, construir e equipar prédios escolares de forma adequada, monitorar os processos, avaliar os resultados e corrigir distorções. O desafio, aqui, é fazer tudo isso em rede, ou seja, não como se cada escola fosse um “feudo”, isolado das demais. E isso transcende a sala de aula, sem desqualificá-la. 

Política do espetáculo, ao invés de políticas públicas eficientes

Por que ressaltar isso agora? Pois nos aproximamos de mais um ciclo eleitoral, em que como tem acontecido nos últimos anos, dois modelos distintos de atuação têm sido confrontados entre candidatos a postos executivos: a política do espetáculo, por um lado, ou a busca de políticas públicas que busquem solucionar nossos principais problemas, por outro.

E isso acontece, inclusive, na educação. Como muito do que se passa em escolas não é visível a olho nu para todos e narrativas extremas, como a de que a Educação é um desastre e só uma medida muito radical pode transformá-la, muitos políticos propõem “balas de prata”, sem base em nenhuma evidência de que funcionem, como a adoção de escolas cívico-militares, o fim da doutrinação por meio de gravação de professores pelos alunos ou até, como já ouvi uma vez, retomar a palmatória nas escolas. 

Ao invés de balas de prata, precisamos de boas políticas educacionais, bem implementadas, que progressivamente atenuem e finalmente resolvam boa parte de nossos problemas na área, como acesso limitado a creches, elevada taxa de abandono escolar, especialmente no Ensino Médio, aprendizagem insuficiente e desigualdades educacionais em todas as etapas e condições desafiadoras de trabalho para os profissionais de educação.

E, como vimos acima, a transformação não passa nem palavras de ordem, nem por soluções que soem mágicas em campanhas eleitorais. Trata-se, isso sim, de construir políticas de Estado e não de governo para garantir direitos de aprendizagem a todos, sem exclusões. E o Brasil pode fazer isso!

Sair da versão mobile