O que os memes “six seven” e “farmar aura” dizem sobre o letramento midiático e algorítmico, e as habilidades do PISA

O que os memes “six seven” e “farmar aura” dizem sobre o letramento midiático e algorítmico, e as habilidades do PISA

Memes parecem apenas piadas da internet, mas compreender esse ambiente se tornou uma habilidade educacional central

Hoje, grande parte da informação que consumimos circula em plataformas digitais que filtram, organizam e recomendam conteúdos continuamente. O que aparece na tela não é simplesmente o que foi publicado, mas o resultado de sistemas algorítmicos que priorizam conteúdos com base em engajamento e comportamento do usuário.

Compreender esse ambiente exige duas competências complementares: interpretar mensagens que circulam nas redes e entender os mecanismos que determinam sua visibilidade.

Essa combinação é chamada de letramento midiático e algorítmico, discutida no framework Media and Artificial Intelligence Literacy (MAIL) associado ao PISA 2029.

De onde vem a ideia de meme

O termo meme foi proposto pelo biólogo evolutivo Richard Dawkins em 1976 no livro O Gene Egoísta. Ele descreve unidades culturais que se replicam entre pessoas, de forma análoga à replicação genética.

Memes apresentam três características principais:

  • replicação — podem ser copiados facilmente
  • variação — surgem em versões diferentes
  • seleção — algumas versões se espalham mais

A internet tornou esse processo visível. Memes digitais, imagens, frases ou vídeos curtos, podem ser replicados, modificados e compartilhados rapidamente.

Memes como padrões de circulação de informação

Memes não são apenas piadas, eles funcionam como padrões de circulação cultural.

Criam estruturas simples que podem ser repetidas e adaptadas. Cada versão mantém o formato básico, mas altera o contexto. Assim, memes ajudam a observar como ideias se propagam e como comunidades digitais constroem repertórios culturais compartilhados.

O meme “six seven”

O meme “six seven” surgiu de um vídeo viral em uma quadra de basquete no qual um menino grita “six seven!”. O vídeo circulou em plataformas como TikTok, Instagram e YouTube Shorts.

A expressão passou, então, a aparecer em comentários, remixes e montagens humorísticas. O número não possui significado fixo: a graça está na repetição exagerada, que funciona como um código cultural compartilhado.

O meme “farmar aura”

A expressão “farmar aura” combina duas referências da cultura digital: farmar, do termo de videogame para repetir ações e acumular pontos; e

aura, presença simbólica ou carisma.

O meme ganhou circulação após um vídeo viral da corrida Pacu Jalur, na Indonésia, em que um garoto dança na proa do barco enquanto os remadores trabalham atrás. 

Nos comentários surgiu a frase: bro is farming aura.

O humor nasce do contraste entre a cena simples e a interpretação exagerada de que o garoto estaria acumulando “presença social”.

Memes, algoritmos e câmaras de eco

Memes se espalham dentro de um ambiente moldado por algoritmos de recomendação. Plataformas tendem a mostrar conteúdos semelhantes aos já consumidos, criando câmaras de eco informacionais.

Memes se adaptam bem a esse sistema porque são:

  • curtos
  • facilmente compreensíveis
  • altamente compartilháveis

Por isso, algoritmos frequentemente amplificam sua circulação.

O que isso tem a ver com o PISA

Essas dinâmicas estão diretamente ligadas às competências discutidas no framework MAIL do PISA 2029, que busca avaliar se estudantes conseguem interpretar criticamente conteúdos digitais, reconhecer padrões de circulação de informação, compreender como algoritmos influenciam a visibilidade e analisar o ambiente informacional das plataformas.

Memes, cultura digital e PISA

A presença de memes como “six seven” ou “farmar aura” no cotidiano dos estudantes revela algo importante para a educação contemporânea: compreender o ambiente digital exige muito mais do que apenas habilidades tradicionais de leitura e escrita.

O PISA (Programme for International Student Assessment), coordenado pela Organisation for Economic Co-operation and Development (OCDE), tradicionalmente avalia competências em leitura, matemática e ciências entre estudantes de 15 anos. 

Nos últimos anos, porém, o programa passou a discutir novas dimensões de letramento necessárias para a vida em sociedades altamente digitalizadas.

Essas dinâmicas estão diretamente ligadas às competências discutidas no framework MAIL do PISA 2029, que busca avaliar se estudantes conseguem interpretar criticamente conteúdos digitais, reconhecer padrões de circulação de informação e identificar manipulação informacional, compreender como algoritmos e como sistemas digitais priorizam conteúdos, e analisar o ambiente informacional das plataformas e do papel de algoritmos na circulação de informação.

Memes se tornaram um exemplo interessante desse novo cenário educacional. Para entender plenamente um meme viral, o estudante precisa reconhecer referências culturais, compreender ironias e exageros, perceber o contexto em que foi produzido e entender por que determinados formatos se espalham mais rapidamente que outros.

Esse processo envolve habilidades cognitivas complexas: interpretação, análise de contexto, reconhecimento de padrões culturais e compreensão das dinâmicas de circulação da informação nas plataformas digitais.

Por essa razão, frameworks educacionais associados ao PISA, como o modelo de Media and Artificial Intelligence Literacy (MAIL), discutem a necessidade de avaliar se estudantes conseguem não apenas consumir conteúdos digitais, mas também compreender o ambiente tecnológico que estrutura essa circulação.

Em outras palavras, entender um meme hoje pode parecer trivial, mas revela competências essenciais para navegar em um ecossistema informacional mediado por algoritmos. Nesse sentido, fenômenos aparentemente banais da cultura da internet oferecem pistas importantes sobre como jovens aprendem, interpretam e participam da esfera pública digital.