O Dia Internacional da Superdotação vem para mostrar que as altas habilidades não são sinônimo de desempenho escolar excepcional
Falar de Altas Habilidades ou Superdotação é falar menos sobre pessoas “acima da média” e mais sobre a capacidade que a educação tem — ou não — de reconhecer e desenvolver potenciais que aparecem de formas muito diferentes.
O 10 de agosto, Dia Internacional da Superdotação, dentro do Agosto Violeta, é uma boa oportunidade para desmontar uma ideia que ainda empobrece bastante essa discussão: a de que altas habilidades são sinônimo de desempenho escolar excepcional. Não são.
Há estudantes com grande capacidade de abstração, criatividade, raciocínio, liderança, produção artística ou resolução de problemas que jamais aparecerão como “os melhores da turma”. Às vezes porque não encontram desafio; às vezes porque sua habilidade não coincide com aquilo que a escola mede; às vezes porque existem barreiras sociais, emocionais, econômicas ou até uma dupla excepcionalidade.
1. Não basta identificar. É preciso criar condições
O ponto que me interessa é justamente esse: talento não é apenas uma propriedade individual esperando ser descoberta. Ele depende também do ambiente em que uma pessoa cresce, das oportunidades de exploração que encontra e dos adultos capazes de perceber aquilo que ainda está em formação.
Tony Wagner, em Creating Innovators, trabalha com uma tríade que ajuda muito a pensar esse problema: Play, Passion and Purpose. Play não é simplesmente “brincar”. É ter espaço para explorar, testar hipóteses, errar, desmontar e reconstruir. Passion é a possibilidade de aprofundar um interesse até que ele deixe de ser uma curiosidade passageira. Purpose aparece quando esse interesse encontra um problema, uma pergunta ou alguma coisa no mundo que mereça ser transformada.
Essa combinação é especialmente importante quando falamos de AH/SD porque mostra que potencial precisa de contexto. Uma criança pode possuir uma capacidade muito acima da média e, ainda assim, nunca ter encontrado uma situação em que essa capacidade fosse exigida.
2. Talvez precisemos ampliar a ideia de habilidade
Também me interessa pensar no que poderíamos chamar de mega-habilidades: capacidades que não cabem bem em uma disciplina específica, mas atravessam várias delas.
Pensamento sistêmico, capacidade de formular problemas, reconhecer padrões, transferir conhecimento entre contextos, aprender rapidamente, construir modelos, lidar com incerteza, criar soluções e revisar o próprio pensamento diante de novas evidências.
São capacidades particularmente importantes em ciência, inovação, tecnologia, arte e empreendedorismo, mas ainda muito pouco visíveis em sistemas escolares organizados por respostas corretas e conteúdos fragmentados.
3. Altas habilidades também são uma questão de equidade
Aqui está talvez a parte mais importante dessa discussão. Quando as oportunidades são desiguais, a própria manifestação do talento se torna desigual.
Um estudante que cresceu cercado por livros, tecnologia, cursos, viagens, adultos com alto repertório cultural e tempo para explorar interesses chega à escola com sua capacidade já convertida em sinais reconhecíveis. Outro pode possuir potencial semelhante, mas não ter encontrado ainda as condições para transformá-lo em desempenho observável.
Se usamos apenas o desempenho para identificar talento, corremos o risco de selecionar não apenas os mais capazes, mas aqueles que tiveram mais oportunidades de parecer capazes.
Por isso, uma política séria de altas habilidades pode ter exatamente o efeito contrário do elitismo que algumas pessoas associam a ela. Pode funcionar como instrumento de equalização de oportunidades, desde que seja capaz de procurar potencial também onde ele ainda não ganhou forma escolar.
É aqui que entra a ideia de equanimidade: não oferecer exatamente a mesma experiência a todos, mas criar condições adequadas para que diferenças reais possam aparecer e se desenvolver.
4. O desperdício de potencial também deveria nos preocupar
Uma escola e a sociedade fracassa quando um estudante não aprende o básico. Mas também fracassa quando alguém passa anos dentro dela sem jamais descobrir até onde poderia chegar.
Quero deixar a seguinte reflexão: Quantas altas habilidades continuam invisíveis porque ainda oferecemos poucas oportunidades para que elas apareçam?
Professor, autor indicado ao Prêmio Jabuti. Nomeado ao Prêmio Darcy Ribeiro. Educador e Game Designer com impacto global, palestrante internacional e orientador de Feiras de Ciências. Doutor pela USP em videogames e linguagem audiovisual. Foi o 1º Microsoft Innovative Educator Fellow da América Latina. Diversas vezes premiado nas maiores feiras científicas do Brasil e do mundo, como FEBRACE, MOSTRATEC, FBJC, MOCICA, ISEF e Genius Olympiad.

