A eleição e a universidade que o Brasil ainda não discutiu

A eleição e a universidade que o Brasil ainda não discutiu

Em anos eleitorais, a educação retorna ao centro do debate político, com candidatos prometem mais escolas, mais vagas, mais bolsas e, quase sempre, mais recursos. É compreensível: poucas bandeiras são tão consensuais

Mas talvez estejamos fazendo a pergunta errada. Em vez de perguntar apenas quanto o próximo governo pretende gastar em educação, deveríamos perguntar onde cada real adicional produzirá maior transformação para o país.

Essa discussão é particularmente importante no ensino superior.

O Brasil construiu um gigantesco sistema universitário. Segundo o Censo da Educação Superior de 2024, já são mais de 10,2 milhões de matrículas de graduação — cerca de 8,2 milhões em instituições privadas, ou seja, aproximadamente 80% dos estudantes já são atendidos pelo setor privado. Pela primeira vez, a educação a distância também ultrapassou o ensino presencial, alcançando 50,7% das matrículas.

Esses números deveriam provocar uma pergunta rara nos debates eleitorais: se o setor privado já tem escala para atender a maior parte da demanda, qual deveria ser o papel prioritário da universidade pública nas próximas décadas?

Minha resposta não seria simplesmente oferecer mais vagas, mas produzir aquilo que o mercado dificilmente produz sozinho: ciência, pesquisa de fronteira e aplicada, inovação, formação de pesquisadores, patentes, inteligência artificial, biotecnologia, transição energética, medicina avançada. Não se trata de diminuir a universidade pública — talvez se trate de torná-la ainda mais importante.

O problema talvez não seja quanto gastamos, mas como gastamos

Segundo a OCDE, o gasto público brasileiro por estudante do ensino superior foi de aproximadamente US$ 3.765 (em paridade de poder de compra), contra uma média de mais de US$ 15 mil entre os países da organização. Não seria correto, portanto, dizer que o Brasil gasta demais por universitário em comparação com os países desenvolvidos.

A questão é outra: estamos direcionando os recursos escassos para aquilo que gera maior retorno para a sociedade?

Historicamente, avaliamos nossas universidades por indicadores predominantemente educacionais — número de alunos, vagas, titulação dos professores, Enade. Tudo isso importa, mas será suficiente para o século XXI?

E se uma parcela relevante do financiamento das universidades públicas estivesse vinculada não só a esses indicadores, mas à capacidade da instituição de transformar conhecimento em desenvolvimento? Quantas pesquisas aplicadas produziu? Quantas patentes foram licenciadas ou viraram produto? Quantas tecnologias foram transferidas para empresas? Quantas startups nasceram de seus laboratórios? Quantos problemas reais da sociedade foram resolvidos por seu conhecimento?

Poderíamos chamar esse mecanismo de dividendo da inovação: quanto maior a capacidade da instituição de devolver à sociedade conhecimento transformado em desenvolvimento, maior a parcela variável de seu financiamento. Isso mudaria profundamente os incentivos.

Não apenas patentes

É preciso cuidado para não trocar uma distorção por outra. Contar simplesmente patentes seria insuficiente e poderia gerar comportamentos artificiais — uma patente sem aplicação econômica ou social não é, necessariamente, inovação. Universidades também não existem só para produzir tecnologia comercializável: como comparar uma descoberta em biotecnologia com uma pesquisa que melhora a alfabetização infantil?

Por isso, um sistema de financiamento por resultados precisaria considerar múltiplas dimensões: produção científica relevante, pesquisa aplicada, patentes licenciadas, transferência de tecnologia, criação de empresas, parcerias com o setor produtivo, formação de mestres e doutores, impacto econômico e impacto social. A universidade manteria liberdade para pesquisar o que considera importante — mas o Estado conheceria melhor o retorno do investimento da sociedade.

Público contra privado é uma discussão ultrapassada

Talvez um dos maiores erros do debate educacional brasileiro seja tratar educação pública e privada como adversárias. Não deveriam ser.

O setor privado demonstrou enorme capacidade de expansão, atendendo hoje quatro de cada cinco estudantes de graduação. O setor público possui algo difícil de reproduzir: universidades consolidadas, pesquisadores qualificados, pós-graduação, laboratórios, hospitais universitários e décadas de conhecimento acumulado.

Por que esperar que os dois sistemas façam exatamente a mesma coisa? Talvez devêssemos pensar em complementaridade: a iniciativa privada seguindo como protagonista da expansão e democratização do acesso, sob padrões rigorosos de qualidade; e a universidade pública progressivamente incentivada a concentrar sua capacidade intelectual na pesquisa, na pós-graduação, na ciência e na inovação. Isso não significa abandonar a graduação pública — significa reconhecer que, com 80% das matrículas já no setor privado, simplesmente aumentar o número de alunos não pode seguir como principal medida de sucesso de uma universidade pública.

Financiar educação ou financiar resultados?

Há uma diferença sutil, mas fundamental, entre financiar instituições e financiar resultados para a sociedade. Uma política pública não deveria existir para preservar estruturas, mas para produzir o maior benefício social possível com recursos limitados — isso vale tanto para instituições públicas quanto privadas.

Talvez precisemos de um novo contrato entre a sociedade e a universidade pública: a sociedade garante recursos, estabilidade, infraestrutura e liberdade acadêmica; em contrapartida, espera conhecimento, formação avançada, ciência, inovação e transformação social. Não vejo nisso uma ameaça à universidade pública, mas uma oportunidade de fortalecê-la.

A pergunta que deveríamos fazer aos candidatos

Estamos em ano eleitoral. Ouviremos propostas de mais recursos para a educação — algumas boas, outras apenas slogans. Mas poderíamos exigir respostas mais difíceis: quanto irá para pesquisa e desenvolvimento? Que incentivos aproximarão universidades e empresas? Como transformaremos conhecimento científico em inovação? E, principalmente: como saberemos, daqui a quatro anos, se o dinheiro adicional investido produziu resultados?

Talvez a discussão educacional de 2026 não deva ser sobre gastar mais ou gastar menos, mas sobre gastar melhor. O Brasil não precisa escolher entre universidade pública e privada — precisa compreender aquilo que cada uma pode fazer melhor: instituições privadas eficientes e capazes de oferecer educação de qualidade em grande escala, e universidades públicas extraordinárias, capazes de produzir o que o mercado dificilmente produzirá sozinho.

Talvez o Brasil precise parar de medir suas universidades públicas principalmente pelo tamanho — e começar a medi-las também pela transformação que produzem.

A eleição termina em algumas semanas. Uma política educacional equivocada pode permanecer por décadas. Por isso, talvez a pergunta mais importante aos candidatos não seja “quanto você pretende gastar em educação?”, mas outra, muito mais difícil: “o que o Brasil receberá de volta?”